“MONSTRO INVISÍVEL”, O RAPPA – A FORÇA DO GRAFFITI



Quando foi exibido pela primeira vez, em 2000, o videoclipe “A Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)”, dirigido por Breno Silveira, Kátia Lund e Paulo Lins, para a banda O Rappa, uma nova estética surgia no audiovisual brasileiro, com resultados sentidos até no aclamado filme “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles e da própria Kátia Lund. Desde então, boa parte dos clipes do Rappa herda aspectos dessa estética, o que é extremamente saudável, uma vez que os trabalhos audiovisuais da banda são rapidamente identificáveis. No recém-lançado “Monstro Invisível”, dirigido por Gustavo Melo e Luciana Bezerra, por exemplo, o grupo só aparece no vídeo por meio de um cartaz pregado na parede de um bar e no adesivo que é grudado num muro.

Sem dúvida o aspecto que mais une “Monstro Invisível” a “A Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)” é o social dos moradores do subúrbio carioca, cuja realidade não se diferencia muito da de outras periferias do país. Há ali elementos fortes como as ruas do subúrbio com a camaradagem entre as pessoas, a alegria de uma cervejinha gelada no bar, o trabalho pesado e, claro, bem de acordo com as letras das canções, ares de preconceito e discriminação social e racial. Tudo marcado por imagens flagradas em ângulos não usuais, muitos momentos de câmera lenta e closes aproximados, presença de ruído ambiente e uma total sincronia do que é exibido na tela oras com o que é descrito na letra da canção, oras com o ritmo da música, como na linda montagem de detalhes dos desenhos. Note como as imagens dos rapazes pregando cartazes durante o dia são marcas dos dois clipes.
Também é utilizado em alguns momentos o som ambiente. Aliás, na seqüência em que ele é utilizado em “Monstro Invisível” há uma sensacional quebra de expectativa. Escuta-se o chefe dos rapazes reclamando de algo que fizeram. Espera-se, então, que haja algum ato de violência, um pouco em função das lembranças que se tem de “A Minha Alma”. Porém, espertamente, os diretores optam por mostrar o chefe exibindo a nota com a qual provavelmente iria pagar os garotos e, depois, jogando o trabalho deles no lixo. Claro que a atitude do patrão é violenta. Porém é bem mais sutil do que a praticada pelos policiais no clipe com o qual é aqui comparado.

Preste atenção como a imagem do garotinho de costas em cima de uma bicicleta pontua todo o clipe. Não é a toa que caberá a ele, no final, observar os grafites, que embelezam e dão vida à cidade, sendo mais vistos do que qualquer obra de arte escondida em museus e galerias. Os trabalhos exibidos foram realizados pelos coletivos cariocas Nação e El Ninho, formados por Pedro Rossi, Gais, BIG e Mateus Velasco, e inspirados na letra da canção.
Mais do que uma forte crítica social como “A Minha Alma”, “Monstro Invisível” registra a batalha dos grafiteiros de uma grande cidade e o passo a passo do trabalho que realizam para produzir grafites e cartazes. Primeiro, observa-se a área a ser trabalhada. Em seguida, realizam-se as molduras do que será grafitado para, daí sim, borrifar tinta do spray pelas paredes, geralmente durante a noite e da maneira mais rápida possível para que não se corra o risco de ser pego pela polícia.

Outro aspecto admirável nos clipes do Rappa é a quantidade de ótimos atores jovens apresentados. A maioria deles pertence a trabalhos comunitários como Nós do Morro, que, aliás, produziu “Monstro Invisível”. Muitos dos que apareciam em “A Minha Alma”, por exemplo, depois brilharam no filme “Cidade de Deus” e no seriado “Cidade dos Homens”.

Esse texto é uma homenagem aos maiores grafiteiros do país, caso de Alex Vallauri, Rui Amaral, Zé Carratu, Os Gêmeos, Joneca, Pessoinha, Bino, Carlos Matuck, Waldemar Zaidler Jr. e Mauricio Villaça, entre tantos outros.

* Gustavo Melo e Luciana Bezerra estréiam no videoclipe, mas são diretores premiados de curtas-metragem como “Mina de Fé”, “O Jeito Brasileiro de ser Português” e “Picolé, Pintinho e Pipa”.

Postado por Guilherme Bryan em 10.10.2008. Comente! () | Permalink



CEDO OU TARDE”, NX ZERO
SHOW DE ILUMINAÇÃO


A iluminação é um dos elementos fundamentais do videoclipe, assim como é também para os outros formatos audiovisuais. Se bem realizada, ela é capaz de provocar novas sensações no telespectador e transmitir informações que não seriam passadas sem ela. Um ótimo exemplo disso é o novo videoclipe da banda paulistana NX Zero, “Cedo ou Tarde”, dirigido por Ricardo Laganaro e que, basicamente, mistura os garotos tocando num teatro abandonado em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, com imagens do arquivo pessoal de cada um deles.

O clipe retrata basicamente a alegria de viver e de tocar esbanjada pelos integrantes do NX Zero, entrando, de certo modo, em choque com a letra de Diego Ferrero e Leandro Rocha e dando novos significados a ela: “Me sinto só / Mas sei que não estou / Pois levo você no pensamento / Meu medo se vai / Recupero a fé / E sinto que algum dia vou te ver / Cedo ou tarde / A gente vai se encontrar / Tenho certeza, numa bem melhor / Sei quando canto você pode me escutar”. Quando se poderia esperar mais um clipezinho romântico dominado pelo protagonista triste e depois reencontrando sua amada, Laganaro fugiu do lugar comum e realizou um clipe com várias nuances provocadas pela iluminação.

A primeira imagem é a de um detalhe do microfone e partes do rosto do vocalista Diego Ferrero no escuro. Uma luz se acende e o mostra em close. A partir daí, com a tela ainda bastante escura, a câmera realiza poucos e suaves movimentos para mostrar detalhes dos outros integrantes da banda. Após essa seqüência, é realizado mais um bonito truque de iluminação. O vocalista aparece no palco e, após um corte, dormindo com a cabeça encostada na janela de um ônibus em movimento, com a luz estourada e a imagem bastante granulada. A partir daí, são intercaladas as imagens escuras do palco com outras de detalhes como um deles autografando um caderno com as letras NX tatuadas nos dedos da mão com a forte presença dos raios do sol.

Uma das cenas mais bonitas é quando a música dá uma acalmada para a entrada do refrão e a câmera percorre a lateral do teatro em 180 graus e retorna para o palco onde luzes se acendem mostrando a presença de uma orquestra atrás da banda, que leva a canção ao seu clímax máximo. A câmera continua girando até que as imagens da apresentação passam a ser intercaladas ou trechos de vídeos caseiros realizados com os integrantes do NX Zero quando crianças. Preste atenção que houve um cuidado na edição para se manter a data original. É importante notar a forte presença dos pais nessas imagens de arquivo pessoal. Claro que isso não é uma novidade – basta lembrar-se dos ótimos clipes “Epitáfio”, dos Titãs, e “No Recreio”, da Cássia Eller –, mas funciona extremamente bem neste caso. Vale a pena prestar atenção na junção da imagem de uma luz amarela iluminando um porta-retratos e a chama de uma vela que aparece em seguida.

A partir daí e até o final do videoclipe é ressaltado outro aspecto da iluminação. As imagens realizadas no interior do teatro aparecem oras com sua cromaticidade mais “natural”, digamos assim, bem colorida, e oras surgem “envelhecidas”, quase em preto e branco, com os músicos se ajeitando, ensaiando ou em quase “poses fotográficas”. Esse contraste faz com que o espectador muitas vezes tenha a sensação de estar vendo dois ambientes diferentes. Na leitura da canção, esse aspecto parece realçar ainda mais as diferenças temporais entre “cedo” e “tarde”. Além disso, a utilização dos variados tons de preto, branco e cinza ajuda a criar um clima mais intimista e de proximidade com quem está vendo. Para completar, há algumas distorções e “viagens na natureza”, como o sol mostrado por entre as folhas de uma árvore. No final, as variações de luz no palco parecem realizar uma espécie de balé apoteótico.

* Ricardo Lagano é diretor de, entre outros, “Quem Já Perdeu Um Sonho Aqui?” (Hateen), “Além de Mim” (NX Zero) e “Doce Ilusão” (Banzé). Também realizou o curta-metragem “Motel”, em 2003.

Postado por Guilherme Bryan em 09.12.2008. Comente! () | Permalink



“BLACK OR WHITE”, DO MICHAEL JACKSON
ÍCONE DO MULTICULTURALISMO


Quando estreou em novembro de 1991, a expectativa em torno do novo videoclipe de Michael Jackson era tão grande que a estréia simultânea de “Black Or White” em 27 países atraiu 500 milhões de telespectadores, um recorde para a época. No entanto, não era de se estranhar. Afinal, foi o agora cinqüentão “Rei do Pop” que transformou as estréias dos videoclipes em algo similar aos maiores lançamentos cinematográficos. Foi o suficiente para alavancar as vendas do álbum “Dangerous”, lançado em seguida.

Dirigido por John Landis – o mesmo de “Thriller”, até hoje apontado como um dos melhores videoclipes da história –, “Black Or White” é o exemplo clássico de uma superprodução que soube se valer de ícones pop da época e brincar com os mitos do cinema – como tão bem soube fazer a colega de Michael Jackson, Madonna. O resultado foi um videoclipe totalmente diferente dos outros. Mais com cara de curta-metragem, ele se constitui em várias produções diferentes que se comunicam num determinado momento, quase como um filme de episódios. Ao abordar temas como intolerância e violência, essa produção apresenta também um dos mais fortes registros do multiculturalismo que começava a ganhar destaque.

O primeiro episódio de “Black Or White”, digamos, começa com o nome da canção na tela e a imagem de nuvens no céu. A câmera, então, parece partir em busca de um som que toca ao fundo. É interessante observar como a trajetória exibida é parecida com a de um videogame até se chegar à casa de uma família norte-americana em que a mãe lê jornal e o pai tenta assistir uma partida de beisebol na televisão, mas é atrapalhado pelo filho, que escuta música a todo volume no quarto e é interpretado por Macaulay Culkin, na época fazendo grande sucesso com “Esqueceram de Mim”, lançado um ano antes. Aliás, o astro mirim pula na cama de modo bastante similar ao realizado neste filme.

O som é interrompido com a entrada pai no quarto do garoto para gritar com ele e o mandar dormir. Observe que apenas nesse instante há uma referência a Michael Jackson, com um pôster com sua imagem caindo da porta do quarto e se espatifando no chão. Como vingança, o menino arma sua guitarra, leva uma imensa caixa de som para a sala e toca apenas uma nota mandando seu pai pelos ares. Ou seja, o diretor John Landis se vale de uma personalidade do universo pop infanto-juvenil para descrever uma cena típica da classe média dos Estados Unidos.

Com a cadeira na qual estava sentado, o pai percorre o planeta berrando até cair no meio do deserto, onde aborígenes tentam capturar leões e leoas. Esse é o final do primeiro episódio, digno das comédias pastelão, de diretores como Blake Edwards e astros como Peter Sellers, que dura cerca de 2 minutos dos 11 totais. É interessante observar como apenas nessa seqüência é que a canção “Black or White” começa, com Michael Jackson finalmente aparecendo na tela para gritar e dançar com os aborígenes.

Iniciando uma nova etapa do videoclipe, Michael Jackson corre daquele cenário para um estúdio, onde começa a dançar em meio a mulheres com roupas de deuses orientais. Com um novo corte, ele bate palmas e se agita entre indígenas que se movimentam em cima de uma imensa caixa branca, cerca por outros índios com lanças e em batalha. Note a quantidade de ruídos ambientes, como o relinchar de cavalos e o som de balas. Novo corte e o astro surge dançando com uma indiana com trajes típicos, durante a noite, no meio de uma avenida bem agitada de uma grande cidade, com os carros passando por entre eles, assim como uma chuva de papel picado. Com uma mudança quase imperceptível, o cantor aparece agora em meio a dançarinos russos na famosa Praça Vermelha, onde a neve cai incessantemente, e realiza com eles passos típicos, como havia feito com os dançarinos de outras nacionalidades do clipe. Lembre-se que foi exatamente em 1991 que a União Soviética deixou de existir. Duas crianças, uma branca e outra negra, sentadas em cima do globo terrestre, apanham uma daquelas lembracinhas que simulam neve, como se o cantor estivesse ali dentro. É o final de mais um episódio do videoclipe, este que pode ser considerado um dos mais fortes registros do multiculturalismo que ganharia ainda mais força nos próximos anos, e é encerrado com Michael cantando e caminhando em meio a paredes de fogo e soldados.

Michael Jackson berra e a imagem retorna para a porta da casa do personagem de Macaulay Culkin, agora vestido com os trajes típicos dos rappers, na companhia de outras crianças e do próprio astro, dublando: “Protectin for gangs, clubs and nations / Causing grief in human relations / It’s a turf war on a global scale / I’d rather hear both sides of the tale / See, it’s not about races / Just places, faces / Where your blod comes from / Is where your space is / I’ve seen the bright get duller / I’m not going to spend my life being a color” (“Proteção contra gangues, clubes e nações / Causando aflição nas relações humanas / É uma guerra de territórios numa escala global / Eu preferiria ouvir os dois lados dessa história ... / Veja, não se trata de raças, / Apenas lugares, rostos, / De onde vem seu sangue, é onde fica o seu lugar / Eu já vi o brilhante ficar mais opaco / Eu não vou passar a minha vida sendo uma cor”).

Com novo corte, o “Rei do Pop” aparece cantando em cima da Estátua da Liberdade, rodeada por outros marcos da arquitetura mundial, caso da francesa Torre Eiffel, do britânico Big Ben e o Coliseum romano. É quando começa a mais sensacional e conhecida parte do videoclipe, com, num sensacional trupe de computação, com a mudança praticamente sem cortes e perfeitas, numa técnica denominada “morphing” (“metamorfose”) da imagem de rostos de pessoas de diferentes cores, sexos, raças, credos e nacionalidades, cantando a música, diante de um fundo azul, até uma garota negra ser aplaudida pela equipe presente no set de gravação, onde surgirá uma pantera negra. É também uma brincadeira com as críticas que o astro vinha recebendo em função de seu branqueamento, justificado por ele em função de possuir uma doença de pele chamada vitiligo.

Esse último segmento do videoclipe foi excluído posteriormente em função das queixas com relação a sua violência. A pantera se transforma em Michael Jackson, que parodia os números clássicos de sapateado de filmes musicais, como “Cantando na Chuva”. É interessante observar as brilhantes iluminação e edição de som, em que é possível escutar cada movimento e respiração do artista, e o sensacional efeito cromático das poças d’água se movimentando a partir dos passos do artista, que quebra os vidros de um carro, em cima do qual também dançará, arrebenta a janela de uma casa de uma rua aparentemente abandonada, e faz explodir o luminoso de um hotel, até se transformar novamente na pantera e ir embora. Em meio às queixas de violência, o “Rei do Pop” se retratou, afirmando tratar-se da simulação de instinto de uma pantera. O videoclipe termina com Bart Simpson, com uma camiseta preta escrita Michael Jackson, assistindo o videoclipe na televisão até ser interrompido pelo pai Hommer, que desliga a televisão, tirando-a do ar. O desenho “Os Simpsons” era a nova sensação da TV norte-americana, uma vez que estava sendo exibido há apenas dois anos, desde 1989.

Clique aqui para ver o clipe.

Postado por Guilherme Bryan em 08.27.2008. Comente! () | Permalink



“DEAR JESSIE”
A DOÇURA DO UNIVERSO INFANTIL DE MADONNA




No último sábado, 16 de agosto, Madonna Louise Verônica Ciccone Ritchie completou 50 anos, como uma das mais bem-sucedidas artistas mundiais, apelidada de “Rainha do Pop” e, porque não?, “do Videoclipe”. Afinal, sempre polêmica, ela encontrou em seus vídeos uma excelente maneira de provocar e chocar os mais conservadores e, assim, atrair a atenção do mundo inteiro. Na sua videografia, estão clássicos como “Like a Virgin”, “Papa Don’t Preach”, “Like a Prayer”, “Vogue”, entre tantos outros. Porém, aqui será comentado um de seus videoclipes menos conhecidos, “Dear Jessie”, dirigido pela companhia Animation City, e que antecipa uma área no qual Madonna mergulharia em profundidade alguns anos mais tarde – o universo infantil.

Quinto single do álbum “Like a Prayer”, de 1989, ele vendeu mais de 300 mil cópias apenas no Reino Unido, alcançando o quinto lugar nas paradas. Composta em homenagem a Jessie, filha do seu parceiro na canção Patrick Leonard, a canção retrata o universo das fábulas. Por isso, nada melhor do que um videoclipe que mistura a linguagem das animações da Disney, principalmente dos filmes “Fantasia”, com ares psicodélicos, influência nítida de “Yellow Submarine”, dos Beatles. A maior prova é a cena em que a tela se transforma numa espécie de caleidoscópio, com pontinhos iluminados girando e formando figuras não facilmente reconhecíveis e, depois, a cena com figuras geométricas coloridas e um trombone agitando a parte instrumental da canção. Preste atenção também como a imagem do desenho da garotinha sentada num planeta é a idêntica a da célebre capa do livro “O Pequeno Príncipe”. Embora seja possível estabelecer relações com o filme “Aladin”, ele só foi realizado, curiosamente, três anos depois do clipe.

O videoclipe começa com uma garota loirinha dormindo. A câmera focaliza os objetos do quarto em silêncio. Alguns traços coloridos saem do rádio, se transformam em violoncelos que dançam no ar e a música começa. O quadro com o desenho de um castelo, dependurado na parede, também ganha vida. A menina acorda, ajeita seu ursinho de pelúcia e é rodeada por uma fada, que faz com que outros objetos tornem-se animados, caso de um bule, que solta um arco-íris, por onde desliza a menina agora transformada em animação e acompanhando os versos da canção: “Ride the rainbow to the other side / Catach a falling star and then take a ride / To the river that sings and the clover that / Brings good luck to you, it’s all true” (“Cavalgue o arco-íris até o outro lado / Apanhe uma estrela cadente e então pegue uma carona / Até o rio que canta e o trevo que / Traz boa sorte para você, é tudo verdadeiro”).

Em meio à aparição dos elefantes cor-de-rosa que sobrevoam o quarto vazio e são criados a partir da letra da canção, Madonna aparece como uma bela fadinha que pisca para a garotinha e também para o telespectador, estabelecendo-se uma cumplicidade entre a pop star e seu público em relação ao universo de fantasia do videoclipe. Sutilmente, confirma-se esse formato como um excelente espaço para um determinado artista, principalmente os mais “antenados” como Madonna, se comunicar de modo direto com seus fãs e admiradores em potencial.

É interessante notar como a fadinha Madonna entra em outro quadro, num dos momentos mais sombrios do videoclipe, com seres alados, fogos e navios abandonados, o que, de certo modo, é suavizado pela letra da canção: “If the land of make believe / Is inside your heart it will never leave / There’s a golden gate where the fairies all wait / And dancing moons, for you” (“Se a terra do faz-de-conta estiver dentro do seu coração / Ela nunca sairá de lá / Há um portão dourado onde todas as fadas esperam / E luas dançantes, para você”). Esses versos são literalmente traduzidos em imagens, com a porta se abrindo e Madonna dançando com as luas.

Em meio a soldadinhos de chumbo, coelhinhos, ursinhos, peixes, palhaços, sereias, sapos e duendes, o videoclipe passa uma mensagem de pureza e mundo de fantasia que sempre habitará o universo infantil, mesmo que muitos tentem ver as crianças apenas como grandes consumidores. “Baby face don’t grow so fast / Make a special wish that will always last / Rub this magic lantern / He will make your dreams come true for you” (“Carinha de bebê não cresça tão rápido / Faça um desejo especial que sempre durará / Esfregue esta lâmpada mágica / E fará com que seus sonhos se tornem realidades para você”), recomenda a agora cinqüentona Madonna, em meio a deliciosas risadas da querida Jessie, que volta a dormir, enquanto os raios dos violoncelos retornam para o rádio.

Postado por Guilherme Bryan em 08.20.2008. Comente! () | Permalink



UMA MÚSICA, FRESNO
EXPECTATIVA COM GOSTO DE PROPAGANDA




Com quase 10 anos de história, a banda gaúcha Fresno é hoje uma das mais importantes sensações da música pop nacional, com suas canções competentes e que caem com facilidade no gosto da rapaziada. Comprovando isso, é realizado o videoclipe “Uma Música”, dirigido por Fabrizio Martinelli (guitarrista do Hateen) e Lucas Fazzio, que mostra uma história linear, porém surpreendente e instigante, com ares de comercial de televisão. Como espécie de complemento, vale a pena rever o primeiro clipe comentado nesse blog há quase dois anos – “Uma Canção é Pra Isso”, do Skank.

A história é simples e já convence logo na primeira seqüência. Uma bela garota aparece dormindo e acordando numa cama. Escutam-se os primeiros acordes de uma canção. Ela levanta, se espreguiça e abaixa a tampa de seu laptop, como se interrompesse a música, que reinicia agora mais forte e pulsante. Um belo truque audiovisual, que estabelece um contato direto com quem está assistindo e agora deseja saber o que irá acontecer.

Os primeiros versos da canção, composta por Lucas Silveira, já preparam o espectador para o que virá a seguir: “Apago as memórias que não vão voltar / Esqueço as histórias pra quem vou contar / Se aqui só você poderá me ouvir / Um rádio tocando, uma voz a cantar / E eu só te olhando até você lembrar / E você ouve a mesma canção que eu”. Algumas paisagens da cidade de São Paulo são mostradas e agora a garota surge em meio aos prédios. Um corte e, em close aproximado, os integrantes do Fresno caminham com seus instrumentos.

A garota se aproxima de várias pessoas, em sua maioria rapazes, mas também de um senhor que joga damas na praça e uma garota distraída no metrô, que escutam música através de fones de ouvido ou diretamente do rádio. Os meninos parecem encantados ao serem abordados por uma garota tão linda e o espectador pode imaginar que haverá um flerte dela com algum deles. Mas seria óbvio demais e a história não se resolve desse modo. Ela apenas escuta o que eles estão ouvindo, se diverte com a canção e vai embora. Aqui é que pode parecer um pouco presunçoso imaginar que todos escutam a mesma música do Fresno, mas é fundamental para o andamento do clipe.

Essa seqüência acontece em simultaneidade com outra dos músicos armando seus equipamentos para tocar em cima de uma ponte. É interessante observar as belas imagens captadas e que são interferidas por “chiados” que, seguindo os padrões convencionais de limpeza e beleza, seriam eliminados na edição final. Mas que, nesse caso, enriquecem ainda mais o que é mostrado. É lindo, por exemplo, observar a tomada área da banda tocando na ponte e o trem passando embaixo dela.

Outra possibilidade que deve passar pela cabeça de quem assiste o videoclipe é que a banda está se preparando para cantar para ela: “Eu só queria uma música / Pra acabar o silêncio que ficou entre nós dois / ... / Eu só queria uma música / Pra dizer tudo o que eu quero sem me arrepender depois (para nós dois) / Até faria uma música pra você e ninguém mais / Pra gente viver em paz”. Essa hipótese se confirma no final, porém de modo surpreendente.

A banda toca não porque um de seus integrantes é o namorado da personagem principal do clipe, mas, sim, porque o verdadeiro namorado dela os contratou para tocarem para a gata. Em câmera lenta, o rapaz tira o fone do ouvido, enquanto a garota se aproxima dele na ponte, os dois se olham, sorriem e observam o Fresno terminar a canção. Verdadeiro final feliz ao som de “Acho que eu fiz uma música pra você / Apago as memórias que não vão voltar / Pra você ...”.

Postado por Guilherme Bryan em 08.08.2008. Comente! () | Permalink



“VIDEO KILLED THE RADIO STAR”, DOS BUGGLES
O FUTURO ESTÁ NO VIDEOCLIPE




“Video Killed The Radio Star”, dirigido por Russell Mulcahy, para a banda new wave britânica Buggles, em 1979, não foi o primeiro videoclipe da história, mas teve o importante papel de anunciar o nascimento de uma nova era. É verdade que o vídeo hoje soa bastante datado e nada futurista, como deveria sugerir, mas a canção permanece contagiante e os versos, que anunciavam o fim da era do rádio, cujo auge havia sido nas décadas de 50 e 60, sem dúvida, foram premonitórios. Afinal, praticamente a partir de então, os clipes tornaram-se indispensáveis na divulgação de qualquer artista e canção.

O clipe começa com a Lua e seu reflexo, uma garotinha ligando e escutando um modelo bastante antigo de rádio e sobreposto a ela a imagem em preto e branco do vocalista da banda cantando num microfone dos antigos estúdios. O rádio brilha e aparece o tecladista tocando com uma roupa roxa brilhante, bem new wave. Alguns truques que seriam muito utilizados no futuro aparecem aqui, caso da imagem duplicada do vocalista em cada um dos cantos da tela sobreposta a de uma garotinha de macacão vermelho no centro ao lado do rádio, que explodirá e libertará uma espécie de “rainha do rádio”, que será captada e presa pela banda numa espécie de espaçonave new wave.

O ritmo desse videoclipe é bastante contagiante, mesmo com seu aspecto de filmes de ficção científica das décadas de 50 e 60, e alguns efeitos são bastante interessantes, como a banda contracenando com um monitor de televisão, onde aparece, por exemplo, o bater do tambor da bateria quando este se manifesta na canção. Também vale a pena prestar atenção em algumas tentativas de brincar com as cores da imagem e também de girar a câmera e deixá-la sem um ponto fixo. Isso sem contar o surpreendente “vôo” da estrela do rádio pelo estúdio e os sensacionais óculos bem ao gosto new wave do início da década de 80.

Por isso, nada melhor do que separar os móveis da sala e festejar a chegada do videoclipe: “O vídeo destruiu a estrela do rádio / Filmes chegaram e partiram seu coração / E agora nós nos reunimos num estúdio abandonado / Nós ouvimos a gravação e parece a tanto tempo atrás / E você recorda que os jingles costumavam funcionar / Você foi o primeiro / Você foi o último / O vídeo destruiu a estrela do rádio” (“Video killed the radio star / Pictures came and broke your heart / And now we meet in na abandoned studio / We hear the playback and it seems so long ago / And you remember the jingles used to go / You were the first one / You were the last one / Video killed the radio star”).

Postado por Guilherme Bryan em 07.29.2008. Comente! () | Permalink



“LOVE IS A LOSING GAME”
A TRISTE E FORTE AMY WINEHOUSE



O que torna um videoclipe inesquecível? A pergunta que atormenta a maior parte dos diretores pode ter uma resposta bastante simples, porém difícil de ser atingida. Ele precisa ter uma seqüência de imagens envolventes que tornem a canção ainda mais atraente e imprimam a personalidade da artista ou da música de modo único e revelador. É justamente o que acontece no sensacional “Love Is A Losing Game”, último single do álbum “Back To Black”, de 2006, de Amy Winehouse.

Uma artista poderosa e, ao mesmo tempo, extremamente carente é o que aparece o tempo todo no vídeo em imagens, em sua maioria em câmera lenta ou praticamente fixas na tela, que vão se unindo de modo bastante poético e, claro, triste. O vídeo começa apenas com os olhos de Amy Winehouse se movimentando. Há uma fusão a imagem de suas mãos. É quando aparece a artista de corpo inteiro num fundo preto começando a cantar. A tela começa a escurecer e se divide com duas imagens da cantora de perfil – uma colorida e outra em preto e branco. Não dá para negar a imensa sensualidade e beleza que essas imagens flagram da cantora.

O vídeo é quase um jogo entre fotografias e imagens com movimentos delicados de Winehouse, o que fornece uma força ímpar à canção. Preste atenção no incrível jogo de cores que criado entre cenas em preto e branco e outras com cores como azul claro, amarelo, etc., sempre mostrados com delicadeza. Outro aspecto importante é que as imagens acompanham todas as nuances e viradas da música. Não há, e nem poderia haver, grandes choques entre imagens e melodia.

Este talvez seja o melhor registro já visto das complexidades de uma artista, que aparece extremamente forte e poderosa no palco, mas frágil e prestes a se quebrar fora deles. Um dos momentos mais deslumbrantes e, ao mesmo tempo, superficiais é quando a tela congela na imagem do olho da cantora. No final, o que se tem nesse jogo penetrante de fusões de imagens é o retrato da imensa solidão que envolve a artista que se tornou a maior sensação mundial dessa década, o que se comprova nas imagens em que ela parece tentar tocar nas pessoas da platéia sem conseguir, em que observa com tristeza pessoas se divertindo e em que tenta se esconder dos flashes e das câmeras. Mesmo o possível namorado do clipe parece bastante distante de seu universo. As duas últimas imagens são exemplares nesse sentido. Na metade esquerda da tela, Amy em preto e branco com a mão no rosto abaixado; e, na metade direita, ela, com olhar perdido, fixa no nada.

O vídeo, portanto, é bem de acordo com a forte letra da canção: “Auto-confessado, profundo / Até as fichas acabarem / Você sabe que é um apostador / O amor é uma partida perdida / Apesar de estar bastante cega / O amor é fato designado / Lembranças machucam minha mente / O amor é um fato resignado / Apesar das oportunidades fúteis / E das risadas dos deuses ... / Agora a cena final / O amor é um jogo perdido” (“Self professed ... profound / Till the chips were down / Know you’re a gambling man / Love is a losing hand / Though I’m rather blind / Love is a fate resigned / Memories mar my mind / Love is a fate resigned / Over futile odds / And laughed at by the gods / And now the final frame / Love is a losing game”).

Postado por Guilherme Bryan em 07.15.2008. Comente! () | Permalink



Indicados ao Prêmio Multishow 2008:
“PULSOS”
PITTY PULSA EM CLIPE AO VIVO




Ao invés da velha discussão se um trecho de show é ou não videoclipe, o que vale a pena prestar atenção em “Pulsos” é numa estética muito bem definida e clara de como se filmar uma canção ao vivo. Definitivamente parece ter ficado para trás as normas de se focalizar praticamente todo o tempo a vocalista em close e a vibração da platéia com imagens nítidas para não incomodar o espectador.

A diretora Joanna Mazzuchelli, com boa bagagem de gravação de shows para DVDs, acerta em cheio em “Pulsos”, da Pitty, gravado em julho de 2007 no Citibank Hall, em São Paulo, como parte do DVD “{Des} Concerto Ao Vivo 06.07.07”. A maior qualidade do número é que a câmera parece passar despercebida tanto para os artistas no palco, que quase nunca a encaram em close aproximado, quanto para a platéia, a qual é focalizada poucas vezes e, mesmo assim, em sua maioria, em belíssimos planos aéreos.

Também vale a pena prestar atenção no modo com o ritmo das imagens dialoga com a canção. Claro que, nos momentos, em que a música torna-se mais vibrante e intensa, há maior granulação das imagens, balanços de câmera e cortes frenéticos. Porém, na maior parte do tempo, a câmera passa a impressão de alguém que acaba de chegar num local. Enquanto procura se familiarizar com o ambiente, ela faz questão de observar todos os detalhes. Preste atenção, por exemplo, em como os músicos são flagrados de modo inusitado.

Outro aspecto sensacional ao qual a equipe de produção do show, liderada por Rafael Ramos, parece ter dado uma atenção extremamente especial, e Mazzuchelli para registrar no vídeo, é a iluminação. É linda a variação de tons preto, cinza e marrom predominantes. Além de provocarem a vista do espectador, em meio ao que antes era considerado errado (granulações, trepidações e imagens fora de foco), eles combinam perfeitamente com os versos da canção: “E um dia se atreveu a não olhar pro alto / Tinha um céu, mas não era azul / No cansaço de tentar, quis desistir / Se é coragem eu não sei / Tenta achar que não é assim tão mal / Exercita a paciência / Guarda os pulsos pro final / Saída de emergência / E um dia decidiu, quis terminar / Só mais um gole, duas linhas horizontais / Sem a menor pressa, calculadamente / Depois do erro, a redenção”.

A roqueira Pitty também prova mais uma vez no palco porque é uma artista tão premiada e querida e admirada pelo público jovem. Sua vibração é contagiante e o modo como interpreta, no caso, “Pulsos”, é extremamente envolvente. Sem cair para a pieguice, risco que parece correr sem medos, a garota encara a platéia de frente e lhe dá o que mais quer: uma força vocal não mais surpreendente e um carisma arrasador.

Desse modo, a qualidade do trabalho de Pitty e Joana Mazzuchelli é tão envolvente, que até os estudiosos do audiovisual deixam de lado a questão que faz ou não de “Pulsos” um videoclipe para se envolverem com uma espécie de balé visual que prende a atenção do começo ou fim do número. E dá muita vontade de quero mais ...

PS: O autor desse blog se esqueceu de completar o texto, pois foi correndo a alguma megastore tratar de adquirir o DVD ao vivo da Pitty, o que deveria já ter feito há muito tempo.

* Joana Mazzuchelli é diretora dos videoclipes de, entre outros, Jota Quest (Do Seu Lado), Kid Abelha (Peito Aberto e Poligamia), Marjorie Estiano (So Easy), Nação Zumbi (Blunt Of Judah), e Thaíde e DJ Hum (Sr. Tempo).

Postado por Guilherme Bryan em 06.20.2008. Comente! () | Permalink



Indicados ao Prêmio Multishow 2008:
PONTES INDESTRUTÍVEIS, DO CHARLIE BROWN JR.

A FORÇA DA ANIMAÇÃO SUJA



Esqueça todos aqueles desenhos bonitinhos que na infância você foi treinado a considerar uma animação de bom gosto e se deixe envolver pela riqueza de traços agressivos e de “sujeiras audiovisuais”. O que importa é chocar e desafiar os padrões estabelecidos. Esse parece ser a maior lição do videoclipe Pontes Indestrutíveis, criado por Ludmilla Rossi (MKT Virtual) e Matheus Ruas (Studio Fly) para o Charlie Brown Jr., com tecnologia de animação em 3d. Claro que não se trata de grande novidade. Muitos clipes já se valeram da mesma técnica. Porém, não deixa de ser um dos bons exemplos.

Tendo como fundo a parte instrumental da canção, a animação começa mostrando aves voando no céu e, em seguida, sendo rapidamente devoradas por peixes no mar. Essa cena colorida se torna preto e branco e vai parar no jornal que cobre um mendigo deitado num banco de praça. Por ele, passa um garoto de skate.

Chorão começa a cantar e o rapaz do skate faz várias manobras na rua e passa por um carro batido. Aparece o desenho de um rapaz sem boca, de boné para trás e camiseta verde que parece cantar e gesticular para a câmera: “Tomo cuidado para que os desequilibrados não abalem minha fé pra eu enfrentar com otimismo essa loucura”.

Os versos “Os homens podem falar, mas os anjos podem voar / Quem é de verdade sabe quem é de mentira” são acompanhados pela imagem de dois rapazes brigando e do skatista saltando. Em seguida, este último continua deslizando pelas ruas até que uma placa quase cai em cima do garoto, que apanha o skate e chega provavelmente em sua casa, onde há várias imagens religiosas, numa espécie de altar, e uma senhora de vestido rosa – provavelmente sua mãe – apanhando de um homem com uma garrafa na mão. Nada mais contrastante para acompanhar “Cuide de quem corre do seu lado e de quem te quer bem / Essa é a coisa mais pura”.

Se o que parece interessar é dar novos sentidos aos versos cantados por Chorão, o que mais do que um garoto vendo televisão para “Fragmentos da realidade estilo mundo cão, tem gente que desanda por falta de opção”? É quando as palavras da canção aparecem escritas no vídeo sujas e anárquicas, acompanhadas de outros desenhos engraçados, como os porcos chauvinistas (políticos) de Brasília. O mais interessante, no entanto, é que as palavras na tela são acompanhadas pelos movimentos de um skatista, que passeia por entre elas.

Nas ruas da cidade, um homem bate numa mulher ao som de, ironicamente, “O que importa é se sentir bem, o que importa é fazer o bem / Eu quero ver meu povo todo evoluir também”. A mulher se transforma numa professora. A repetição dos versos é ilustrada por um homem com uma garrafa na mão maltratando um cachorro. No entanto, na terceira vez que Chorão canta, uma mulher que está com um rapaz numa viela suja, como num passe de mágica, aparece recebendo flores num campo florido e bonito.

O skatista realiza novas manobras até entrar num galpão onde o Charlie Brown Jr. está tocando. Ele dança até ir parar no meio de um terreno baldio rodeado de fogo. É quando, numa das cenas mais bonitas e fortes, a câmera treme e realiza um movimento de 360 graus em torno do rapaz. “Difícil é entender e viver no paraíso perdido / Mas não seja mais um iludido / Derrotado e sem juízo”.

O clipe termina com a banda tocando diante de grandes caixas de som para uma galera, enquanto o skatista encontra uma garota com quem caminha em direção de pontes indestrutíveis, como indica a letra da canção: “Viver, viver e ser livre / Saber dar valor para as coisas mais simples / Só o amor constrói pontes indestrutíveis”. Essa imagem vai parar na televisão, que sai do ar enquanto um homem ronca na poltrona.

“Pontes Indestrutíveis”, portanto, é um interessante videoclipe de animação que, escapando das regras do que seria um “bom” desenho, ajuda a enriquecer os versos da canção, dando-lhe novos sentidos ou fornecendo imagens praticamente literais. No final, fica-se a sensação de ter visto algo extremamente agradável e marcado pela simplicidade.

Postado por Guilherme Bryan em 06.12.2008. Comente! () | Permalink



Indicados ao Prêmio Multishow 2008:
“NOSSA MÚSICA”, DO CPM 22

QUEBRA-CABEÇA AUDIOVISUAL



Indicado ao prêmio Multishow 2008, o videoclipe “Nossa Música”, dirigido por Ricardo Spencer para a banda CPM 22, é uma das boas realizações do ano em função de realizar uma espécie de quebra-cabeças audiovisual, onde a chave para a resolução da história parece estar na interpretação dos versos da canção. Desse modo, é bem provável que a sua conclusão seja bastante diferente da de seus amigos. No entanto, o que importa é se deleitar com imagens fortes e atraentes, com forte presença do diretor de fotografia Rodrigo Toledo.

A tela toda escura com apenas alguns detalhes iluminados passa a sensação de uma noite deserta e fria. A câmera desliza, como se estivesse à procura de algo, pelo lado de fora de um apartamento colocado para alugar. Em meio aos primeiros acordes da canção que rompem o silêncio inicial, uma garota surge por detrás da câmera e caminha por uma rua vazia. Para quem mora ou conhece São Paulo, é possível identificar o local como sendo o Minhocão.

Em close, o rosto da garota demonstra todo seu desespero e angústia, expressões que ficam ainda mais forte em conjunto com a câmera trepidante, as imagens um pouco embaçadas e os versos iniciais da canção, composta por Wally: “Lembro que disse: / É hora de seguirmos sozinhos / Por nossos sonhos despedaçados / Às vezes a vida / Parece uma guerra eu sei / Sem qualquer sentido”.

Após o registro de alguns detalhes de outros apartamentos, como uma pessoa assistindo televisão, a garota começa a correr desesperada acompanhando a aceleração da música, que se transforma num elétrico punk rock. Há três cortes: para o rosto de um homem parado, para os detalhes de uma cozinha com a mesa posta e uma pessoa tentando melhorar a sintonia da televisão e para uma garota deitada numa banheira rodeada de velas acesas.

Os versos “Lembro que disse / É hora de seguirmos sozinhos, / Pois o seu tempo acabou, / Se ouvir essa música essa noite” são o ponto alto do videoclipe. Com cortes bruscos e rápidos, e algumas “sujeiras” audiovisuais, mostra imagens, em preto e branco, de um casal diante da janela de um apartamento, as quais são intercaladas com detalhes da moça e de um rapaz nos espaços noturnos iniciais.

Há uma pequena pausa na música que é utilizada imageticamente pelo diretor, como se ali iniciasse a segunda parte do videoclipe. Agora é um rapaz que caminha a noite. Ele passa por dentro de um bar e diante de uma banca de jornal fechada até aparecer numa rua embaixo de um viaduto. A câmera realiza uma espécie de vôo para flagrar em cima do tal viaduto a moça do começo do vídeo passando. Ou seja, é mais uma confirmação do desencontro do casal, tema da canção.

A moça começa a correr novamente com a nova aceleração da música. Uma curiosidade é notar que, diante de tanta dramaticidade, ela quase cai. Outro rapaz brinca de boxe diante do espelho. Novo corte para a garota da banheira lendo uma revista, sob o suposto olhar de uma senhora. O clipe termina com a personagem principal passando também pelo bar e pela banca de jornal até entrar no apartamento do início e parar na cozinha ao lado da televisão.
Esse é um videoclipe bastante interessante pelo fato de apresentar imagens que só estabelecerão relações umas com as outras a partir da interpretação da letra da canção, não havendo uma simples transposição desta para o vídeo. Mesmo assim, é possível se deleitar com elas e obter diferentes conclusões. Mais importante do que isso, no entanto, é a maneira inteligente e competente com que o diretor emite de modo indiscutível seu ponto de vista a respeito da banda sem precisar exibir uma imagem sequer de seus integrantes em ação.

* Ricardo Spencer é o diretor para, entre outros artistas, Pitty (Déja-Vu e Memórias) e Cachorro Grande (Roda-Gigante).

Postado por Guilherme Bryan em 05.15.2008. Comente! () | Permalink



Indicados ao Prêmio Multishow 2008:
“AQUI”, DO CAPITAL INICIAL

FOTOGRAFIAS E CLIMAS NUM CLIPE SURPREENDENTE



Poucos videoclipes são tão contagiantes na primeira vez em que são vistos quanto Aqui, dirigido pelos estreantes Fred Ouro Preto e Carina Zaratin, para o Capital Inicial. Sem se tratar de uma grande produção com orçamentos milionários, que caracteriza o trabalho da banda no formato, esse clipe vale-se da criatividade no aproveitamento de recursos aparentemente simples, como distorções e mistura de vídeo com fotografias em câmera lenta.

O clipe começa com várias fotografias de detalhes de cabos, fios, palhetas, microfones e fotos se unem umas as outras numa velocidade alucinante. A câmera focaliza um retrato do Capital Inicial dependurado na parede atrás de um sofá onde se encontra uma garota deitada de lingerie. A câmera focaliza flores caídas no chão que ressurgem, no plano seguinte, registradas numa fotografia caída em outro chão, agora do local onde está o vocalista Dinho Ouro Preto, que, sentado, começa a cantar olhando para a câmera. Uma foto em cima de uma mesa, que a câmera encontra, faz com que o clipe retorne para a sala da garota. Ela pisa nas flores que ressurgem num painel da parede do espaço onde a banda toca.

Outra seqüência similar e talvez a mais bonita do clipe é a que mostra Dinho Ouro Preto sentado no chão e, na frente dele, um disco girando na vitrola. Em seguida, o mesmo disco surge nas mãos do baterista Felipe Lemos, que o guarda numa capa de papelão. Mais uma: a câmera focaliza o rosto da garota, que aparece numa foto queimada pelo baixista Flávio Lemos. É esse ordenamento de imagens a característica mais importante, inovadora e criativa desse vídeo, que utiliza um ritmo, denominado slow motion (câmera lenta), que faz lembrar o consagrado pelo diretor francês Michel Gondry – um dos gênios do videoclipe – em Like A Rolling Stone, com Rolling Stones.

É preciso destacar mais dois aspectos bastante peculiares do videoclipe. O primeiro é o contraste provocado entre imagens focalizadas por um mesmo ângulo coloridas e, logo em seguida, em preto e branco. O segundo aspecto é a utilização caprichada e com boa dose de surpresa de imagens propositalmente desfocadas, que deixam ainda mais claro tratar-se este de um clipe artístico, onde, mais importante do que narrar uma história ou retratar a letra da canção, está a criação de climas envolventes para o espectador poder se deliciar com belos retratos. O melhor exemplo é a seqüência em que a câmera chacoalha ao focalizar o rosto da garota e o deforma, transformando-o em manchas azuis.

A síntese de todas essas sensações parece estar na performance da banda que toca de frente para a câmera num espaço em que há dezenas de fotografias pregadas nas paredes. É linda também a seqüência do guitarrista Yves Passarel que tem sua imagem azulada enquanto toca uma guitarra amarela diante de um fundo infinito preto, em câmera lenta. A câmera registra a mancha amarela criada pelo movimento do músico com seu instrumento. Efeito que é repetido no final do clipe com a luz propagada pelas lâmpadas caídas no chão do ambiente onde a banda tocou.

Há de se destacar também a simplicidade do videoclipe “Aqui”, que se vale bastante de singelos efeitos de pós-produção e de imagens registradas numa mesma sala de paredes brancas em diferentes circunstâncias. Aspecto, aliás, totalmente de acordo com a bonita letra da canção: “Aqui onde as horas não passam / Aqui onde o Sol não me vê / Aqui onde eu moro / Não existo sem você / Me olho no espelho / E me vejo do avesso / O mesmo rosto / Que eu não reconheço”.

Especial: vamos fazer uma entrevista com o Capital Inicial. Mandem perguntas aqui nos comentários!

Postado por Guilherme Bryan em 05.06.2008. Comente! () | Permalink



Indicados ao Prêmio Multishow 2008:
“PELA ÚLTIMA VEZ”, NX ZERO

NARRATIVA COM A BANDA



Lembra-se dos inúmeros videoclipes do Foo Fighters em que o vocalista Dave Grohl aparece fantasiado de gorda, nerd, aviador, etc., como personagem principal de uma história que acompanha a canção que ele interpreta? Pois “Pela Última Vez”, dirigido por Fabrizio Martinelli e Paulinho Caruso para a banda NX Zero é exatamente igual. Ou seja, vale-se de uma fórmula bastante manjada, mas que continua esbanjando a mesma capacidade de encantar o espectador.

O clipe começa com uma garota de óculos escuros e cachecol de pele chegando à festa de uma amiga, igualmente patricinha exuberante. Um detalhe importante é que um garoto se joga na piscina da casa em plena luz do dia. Ela fala ao telefone celular e escuta-se ao fundo o som ambiente. A câmera a acompanha enquanto ela conta a amiga que o pai da dona da casa convidou o NX Zero para tocar. Ela cumprimenta as amigas que estão na casa. Há um corte para rapazes de óculos, interpretados pelos próprios integrantes da banda, com embrulhos na mão e a música começa.

A câmera focaliza os rostos dos garotos e das meninas a fim de esbanjar as diferenças clichês entre nerds, que se penteiam e fazem caretas, e patricinhas, que movimentam os cabelos esvoaçantes, sorriem discretamente e trocam beijos entre si. Um dos garotos toma coragem e entrega a flor que trouxe para uma das garotas, mas espirra em cima dela. Há um close exagerado no rosto do rapaz, totalmente constrangido. Em seguida, enquanto ela ri, ele se lamenta com os amigos.

É nesse instante que chegam a casa os integrantes do NXZero, agora como eles mesmos. As meninas gritam, os beijam e tiram fotos com eles, sob os olhares enfurecidos dos outros rapazes. Há um realce na diferença de estilos dos roqueiros, com bonés, bermudas, camisetas e cabelos desorganizados e espetados, e dos nerds, arrumados de maneira extremamente formal e com gel no cabelo bem alinhado. Elas sobem com os músicos para o quarto que será utilizado como camarim, enquanto os outros meninos pensam num modo de se vingar.

A idéia dos garotos é fazer os integrantes do NX Zero beberem algo com remédio e, depois que eles capotarem, tomar suas roupas e assumir seu posto no show, atraindo desse modo finalmente a atenção das meninas. É quando aparece o pai da aniversariante dizendo que queria levar a Madonna, mas que a filha preferiu os rapazes da banda paulistana. Depois de um rápido constrangimento, os nerds começam a tocar e levam o público ao delírio. O clipe termina com o rapaz que está no lugar do vocalista caindo na piscina e uma das garotas entrando sem querer no quarto e encontrando os músicos verdadeiros amarrados.

O que mais atrai em “Pela Última Vez” é o exagero na utilização de clichês, tornando-os ainda mais caricatos, exatamente o que fez com que os clipes do Foo Fighters e de outras bandas obtivessem tanto sucesso. Ou seja, tem-se a sensação o tempo todo de algo absolutamente “fake” e próximo das comédias do cinema mudo e das histórias em quadrinhos infantis.


* Fabrizio Martinelli é guitarrista da banda Hateen e diretor de clipes como Você Pode ir Na Janela, do Gram; e Paulinho Caruso é diretor de curtas-metragens e de clipes como Doce Ilusão, do Banzé.

Postado por Guilherme Bryan em 04.25.2008. Comente! () | Permalink



“RODA GIGANTE”, DO CACHORRO GRANDE
CLIMA PSICODÉLICO E FAMILIAR



Os mais ilustres precursores dos videoclipes são os promos realizados para algumas canções dos Beatles na segunda metade da década de 1960. Eles são tão marcantes que há quem os considere de fato os primeiros clipes da história. Um deles acaba de ter seu estilo utilizado como inspiração no novo vídeo da banda gaúcha Cachorro Grande, “Roda Gigante”, dirigido por Ricardo Spencer e filmado no sítio da família do guitarrista Marcelo Gross, em Sobradinho, no interior do Rio Grande do Sul.

A idéia é colocar a banda tocando num descampado e valer-se de uma fotografia impactante, que abusa dos tons psicodélicos das cores fortes e das imagens bastante embaçadas, cheias de riscos e chuviscos, e marcadas por uma luz natural em alguns momentos estourada. Esse estilo, aliás, também marcou bastante a carreira de bandas como Pink Floyd.

Rodado em câmera super 8 (formato que surgiu nos anos 60 para uso amador, mas seguiu com sucesso até meados da década de 80), o clipe começa com os músicos se ajeitando com seus instrumentos. Quando são escutados os primeiros acordes da canção, a câmera começa a espreitá-los por entre folhas e árvores. Ou seja, a intenção aqui é mostrar os músicos, extremamente bem-vestidos com ternos, chapéus e lenços, por ângulos incomuns, como se estivessem sendo filmados sem conhecimento prévio.

Chamam atenção também os cortes secos, os closes aproximados dos músicos, algumas imagens sem sentido aparente e a câmera que, em muitos momentos, parece chacoalhar. Esses recursos são utilizados, até certo modo discretamente, para fornecer mobilidade ao clipe e, com isso, torná-lo cada vez mais atraente ao espectador.

Essa sensação é totalmente condizente com os versos da canção: “Com você eu consigo enxergar bem mais longe / Sem cartão colorido mesmo muito distante / Parece que o tempo todo passou nesse instante / O mundo inteiro girando como uma roda gigante / E eu não quero mais descer / Não tenho medo de você / Eu não preciso falar e você está me entretendo / Eu só preciso te olhar e sei o que está acontecendo / Até parece um sonho, mas estou acordado / Se estou com meus pés no chão posso voar bem mais alto”.

No entanto, se o tal promo dos Beatles se restringia a mostrar a banda tocando praticamente do mesmo ângulo, com poucos cortes e mudanças de câmera, “Roda Gigante” mostra também pessoas locais, como duas lindas garotinhas louras que brincam no balanço, correm pelo campo e, depois, fazem caretas para a câmera, e por uma mulher e um senhor, que observam os músicos passearem pela área. Uma das cenas mais bonitas, no entanto, é quando um garotinho sem camisa bate no tambor da bateria.

O clipe termina com as três crianças correndo por uma estrada de terra de costas para a câmera. “Usamos os atores locais pra figurar a historinha que nós bolamos a partir da letra, ficamos impressionados como eles, os Scherer, foram naturais. Afinal, eles tinham que interpretar eles mesmos no lugar onde vivem. Só que uns cem anos atrás. Mas faltavam as crianças que eram muito importantes no roteiro meio doido que fizemos com nosso grande diretor”, relata a banda em seu blog oficial.

* Ricardo Spencer é o diretor de videoclipes para artistas como Pitty (Déja-Vu e Memórias) e o próprio Cachorro Grande (Bom Brasileiro).

Postado por Guilherme Bryan em 04.22.2008. Comente! () | Permalink



“O PRODUTOR”, RAMIREZ
NOVOS RUMOS PARA O VIDEOCLIPE



Videoclipe, curta-metragem ou as duas coisas? Essa é a grande pergunta que pode ser feita ao se assistir o sensacional O Produtor, dirigido por Henrique Sauer para a banda carioca Ramirez e estrelado pelo garotinho Zé Guilherme, que tinha pouco mais de 2 anos quando o vídeo foi rodado. Um videoclipe pode ser caracterizado como pequeno vídeo de poucos minutos de duração em que são fornecidas imagens a uma determinada canção. Nada diferente, portanto, do que acontece em O Produtor, espécie de paródia, bem brasileira e transformadora, de outro vídeo que circulou com sucesso pela Internet – Land Lord, estrelado pelo comediante Will Ferrell.

O diretor Henrique Sauer nos deu uma resposta quando foi questionado a respeito: “Um pouco de tudo. Foi uma saída pra divulgar o trabalho da banda de uma maneira diferente. E não tem nada de novo nisso. Somente a plataforma que usamos (a Internet). Beatles, Monkeys, Elvis, Roberto Carlos ... ou Britney Spears, Spice Girls, hahaha. Todos já cruzaram pra (sic) esse universo da ficção para aumentar o raio de ação de seus trabalhos”.

É possível discordar facilmente de que não há nada de novo em O Produtor. Muito pelo contrário. Ele está, de certo modo, muito mais próximo de "Thriller", do Michael Jackson, do que dos filmes estrelados pelos Beatles e por Roberto Carlos, por exemplo. Eis aí talvez a chave para o enigma. De certo modo, apenas uma canção é apresentada nesse vídeo, Sophia, mesmo que entrecortada e incompleta, e apesar da presença de Carmem, de Bizet, logo no início. Portanto, o vídeo pode ser caracterizado como videoclipe em curta-metragem e ele é mais uma prova de como este é um formato audiovisual extremamente aberto a experimentações e avesso a regras rígidas.

Vamos, então, ao videoclipe propriamente dito. Ele começa com imagens de procura de sintonia, como as faixas de cores e os chuviscos de fora do ar, enquanto o nome da banda pisca no centro da tela. É quando, ao som de Carmem, aparecem os créditos de apresentação, como acontece geralmente nos filmes, e são mostrados detalhes da banda se preparando. Ainda em closes aproximados, os rapazes começam a tocar até discutirem e concluírem que estão nervosos devido à proximidade da visita de um produtor “exigente e casca grossa”.

“Minutos depois”, a câmera baixa vai se aproximando em direção a mesma sala onde estão os músicos. Após um dos integrantes da banda dizer: “O produtor vai encher o saco, você tenha certeza”, percebe-se certo constrangimento dos outros, que ficam em silêncio diante possivelmente de uma pessoa estranha. A câmera os rodeia, e apenas ao som do toque do prato da bateria, corta para o produtor, ou melhor, o garoto Zé Guilherme.

Em diferentes cenários, como a sala de ensaio e o estúdio, a atuação de Zé Guilherme é genial, de uma naturalidade espantosa. Com a língua um pouco enrolada e figurino alinhado (camisa branca e bermuda marrom), como é comum em crianças de sua idade, o menino apresenta gestos e movimentos que brincam de modo extremamente voraz com os estereótipos de um produtor musical. Há expressões faciais, como quando aparece zangado no início, e falas inesquecíveis como “Não me faça perder tempo”, “Tá de sacanagem?”, “Tá com medinho?”, “Francamente, não sei por que agüento isso” e “Quer fazer sucesso? Aprende a cantar”. É preciso ressaltar, porém, que, diante de uma interpretação tão intensa, os momentos em que os músicos aparecem como atores tornam-se ainda mais caricatos.

Os maiores méritos estão na direção de Henrique Sauer, que cria um vídeo em que é impossível não se envolver com a história apresentada, que mistura a angústia de uma banda novata diante de um produtor severo e rígido. Porém, em momento algum, a câmera esconde o fato de Zé Guilherme ser uma criança. Muito pelo contrário. Isso é realçado praticamente a cada novo quadro em que ele aparece. Exemplos são quando, sentado numa cadeira, chacoalha pernas e pés, ou então quando pede para o guitarrista se abaixar, tampa os ouvidos, quase transforma sua última fala numa canção, boceja e toma sua mamadeira. O clipe termina com a banda tocando o final da canção e os letreiros aparecendo num fundo preto.

Postado por Guilherme Bryan em 04.09.2008. Comente! () | Permalink



“BREAK THE ICE”
AÇÃO EM MANGÁ, MAIS UMA VEZ BRITNEY


Britney Spears, ao lado de Madonna e Björk, parece ser a popstar que mais se preocupa com a qualidade de seus videoclipes, utilizados como uma “arma” para chocar e transmitir novos estilos de comportamento e cultura. Nas mãos do competente diretor Robert Hales, a artista se transforma numa heroína de mangá no videoclipe de animação “Break The Ice”, terceiro single do álbum “Blackout”.

Livremente inspirado nos desenhos japoneses, o videoclipe começa com um close na boca do desenho de Britney Spears, que está submersa no mar. Desde o primeiro instante, percebe-se uma das características mais marcantes desse vídeo – o realce de contrastes entre imagens bastante coloridas. Em alguns momentos, a câmera fica completamente vermelha, em outros fica verde e assim por diante, o que ajuda bastante a realçar o aspecto dramático do que está sendo exibido.

A heroína reaparece em seguida entre os prédios de uma grande cidade com seus cabelos loiros esvoaçantes. Preste atenção como os cortes são rápidos e bruscos, e como os desenhos mostram ângulos inusitados. Há também imagens trêmulas e um pouco fora de foco, exatamente do mesmo modo que acontece em filmes de ação. Não à toa, a revista norte-americana “Rolling Stone” estabeleceu uma ligação entre esse clipe com o seriado e os filmes “Missão Impossível”.

Uma das seqüências mais bonitas de “Break The Ice” é a queda de Britney Spears do topo de um prédio até uma espécie de vitral amarelo posicionado no chão. Nesse instante, a tela se divide em três partes – uma ocupando a primeira metade vertical e as duas restantes a outra metade. O mesmo recurso voltará a ser utilizado quando metade do rosto de uma espécie de vilão aparecerá do lado esquerdo em vermelho e, em seguida, a metade da face de Britney Spears surgirá do outro lado, num claro e óbvio jogo de referência entre as cores que caracterizam o mal e o bem.

O recurso da câmera lenta e do close em detalhes, por exemplo, de partes do corpo do desenho de Britney Spears ou dos policiais e anônimos é muito bem explorado nesse videoclipe. O que se torna ainda mais forte quando próximo de cenas de bastante agitação, cortes secos e imagens desfocadas e agitadas, típicas do que se denomina “câmera nervosa”.
Totalmente de acordo com os sons presentes na canção original, somados a alguns ruídos inseridos na pós-produção, a narrativa do videoclipe está situada num ambiente futurista, o qual pode ser percebido pela constante presença de naves espaciais, espadas de Jedi e aparelhos eletrônicos (como relógios), e também pela roupa emborrachada utilizada pela heroína, extremamente sensual. Sensualidade esta, aliás, condizente com os versos quentes da canção: “Oooh, parece que estamos sozinhos agora / Você não deve ter medo / Nós somos crescidos agora / Vou me esfregar em você / Até soltar faíscas / Você pode aumentar a temperatura se quiser / ... / Me deixe quebrar o gelo / Me permita te deixar legal / Não quer se esquentar em mim? / Baby, eu posso te deixar bem (quente)” (“Oooh, looks like we’re alone now / You ain’t gotta be scared / We’re grown now / I’m a hit defrost, on ya / Let’s get it blazin’ / We can turn the heat up, if you wanna / ... / Let me break the ice / Allow me to get you right / Once you warm up to me / Baby, I can make you feel hot”).

O videoclipe termina com Britney Spears destruindo uma janela de vidro e se jogando no instante exato em que explode o prédio onde estava – o que é uma cena bastante clichê de filmes de ação. Em seguida, aparece a mensagem: “To Be Continued”. Provavelmente, não é uma novidade. Mesmo assim, é interessante imaginar a possibilidade de, como no cinema, um videoclipe se tornar uma franquia com várias continuações.

* O britânico Robert Hales é designer gráfico e diretor de videoclipes de artistas como Gnarls Barkley (“Crazy”), Richard Ashcroft (“Money To Burn”), Jet (“Put your money where your mouth is”), Kid Rock (“You never met a motherfucker quite like me”) e Justin Timberlake (“LoveStoned”).

Postado por Guilherme Bryan em 03.20.2008. Comente! () | Permalink



“VAI”, DA ANA CAROLINA
OS MISTÉRIOS DO CLIPE AO VIVO



Uma faixa de um show registrado em DVD pode e deve ser considerada um videoclipe? Essa é uma questão que incomoda bastante os pesquisadores do assunto. Afinal, em sua origem, videoclipe está associado à criação de imagens para uma única canção. Porém, alguns shows possuem números tão bem realizados e que bem que dá vontade de vê-los seguidas vezes, isolados dos outros. É justamente o que acontece com a versão ao vivo de Vai, retirado do show realizado por Ana Carolina especialmente para o Multishow Ao Vivo.

No ano passado, o CD duplo de estúdio Dois Quartos figurou na lista dos mais vendidos durante meses. Por isso, é mais que provável que faça tanto sucesso quanto a versão ao vivo de versos fortes como “Calma aí! / Que diabo você tá dizendo agora? / Que onda é essa de outro lance pra viver? / Você nem pode estar falando sério ... / Vivi pra você / Morri pra você / Pois então vai! / A porta esteve aberta o tempo todo / Que tá lhe segurando? / Você sabe voar”.

De violão em punho, Ana Carolina aparece luxuosa com um discreto conjunto preto diante de uma cortina vermelha bastante iluminada que dá grande força ao cenário do espetáculo e à sua interpretação forte e comovente. Não sou um grande fã de seu jeito de cantar, mas é impossível não reconhecer que ele consegue encantar multidões.

Os movimentos de câmera realizados pelo diretor Rodrigo Carelli são também bastante discretos. A preferência está em valorizar os closes no rosto de Ana Carolina, também presente constantemente no vídeo em plano americano (da cintura para cima). Os músicos que acompanham a cantora são mostrados em plano inteiro ou no registro de detalhes importantes como suas mãos em ação. A platéia aparece pouco e, mesmo assim, quase sempre de modo disforme. Em raríssimos momentos, o palco aparece inteiro e ao longe no vídeo, mas estas vistas panorâmicas são fundamentais para dar ao espectador a sensação de completude do show.

Em alguns momentos, a câmera passeia livremente por entre os músicos, a cantora e sua backing vocal. Também são valorizados os tons mais escuros, o que ajuda a realçar os detalhes de iluminação do show e criam um contraste bastante forte e bonito com a tal cortina vermelha brilhante posicionada no fundo do palco. Um detalhe interessante é como a cor do violoncelo, por exemplo, quase que se mistura com a da cortina.

Diante de tanta discrição, o que mais chama a atenção nesse “videoclipe” ao vivo é as reações de Ana Carolina diante de seu público, cada vez maior. É latente seu imenso prazer em interpretar as canções cuidadosamente selecionadas para seu repertório. Também é impressionante notar como o diretor Rodrigo Carelli entra na “viagem” da canção e compõe imagens que dialogam em muitos momentos com a os versos ou criam climas para eles. No final, por exemplo, a câmera se posiciona na platéia e mostra detalhes da cantora que quase que se misturam com o público.

Postado por Guilherme Bryan em 03.14.2008. Comente! () | Permalink



"BOA SORTE / GOOD LUCK"
VANESSA DA MATTA E BEN HARPER JUNTOS

A originalidade também não é o forte do videoclipe Boa Sorte / Good Luck, dirigido por Bruno Natal, Rafael Mellin, Juarez Escosteguy e Adriano D’Aguiar para marcar o encontro da brasileira Vanessa da Mata com o norte-americano Ben Harper. Essa turma resolveu optar por mostrar detalhes dos ensaios e das gravações no estúdio do mesmo modo como, por exemplo, Guilherme Ramalho dirigira os clipes dos Tribalistas e Gabi Gastal, Dora Jobim, Gabriela Figueiredo e João Bonelli registraram a canção dividida por Ney Matogrosso com Pedro Luís e a Parede.

Por meio da tela dividida em alguns momentos em poucos fragmentos e em outros em dezenas, os diretores mostram a mesa de som, os músicos tocando seus respectivos instrumentos (como a baqueta na mão do baterista e os dedos do violonista dedilhando o instrumento), Vanessa da Mata diante do microfone com um fone de ouvido na cabeça, e o corredor por onde chegará Ben Harper. As imagens mais interessantes são as que apresentam detalhes geralmente desprezados, caso da cantora brincando com os músicos, dançando e depois descansando numa cadeira.

Nesse clipe os contrastes de fotografia também são muito bem explorados. Enquanto Vanessa da Mata exibe um vestido vermelho num estúdio bem iluminado, Ben Harper surge primeiro cantando num ambiente bem escuro e depois, usando um boné azul, em outro diante de uma árvore num dia bem ensolarado.

O principal objetivo de clipes como Boa Sorte Good Luck parece ser o mais simples registro do encontro musical entre dois artistas importantes, no caso Vanessa da Mata e Ben Harper. Funciona quase como um “making of”, com os bastidores no estúdio, os ensaios que antecederam as gravações e o clima que as cercaram. Para isso, são precisos cuidados bem específicos com a fotografia, a iluminação e com uma direção que busque mostrar as cenas sempre por ângulos diferentes e inesperados a fim de não cansar o espectador com algo que ele já deve ter visto tantas vezes nas mais diferentes circunstâncias.

Há também a nítida intenção de valorizar os versos da canção e sua interpretação. No caso, a bonita adaptação de Vanessa da Mata para a letra original de Ben Harper: “É só isso / Não tem mais jeito / Acabou, boa sorte / Não tenho o que dizer / São só palavras / E o que eu sinto / Não mudará / Tudo o que quer me dar / É demais / É pesado / Não há paz / Tudo o que quer de mim / Irreais / Expectativas / Desleais”.

Postado por Guilherme Bryan em 03.12.2008. Comente! () | Permalink



"ME LOVE"
O ROMANCE FRAGMENTADO DE SEAN KINGSTON



Aproveitando a vinda do rapper norte-americano Sean Kingston, de 18 anos, ao Brasil, comentamos aqui um de seus clipes mais badalados, Me Love, dirigido por Justin Francis/The Saline Project. Não há exatamente nenhuma novidade, muito pelo contrário, o que se vê a manjada técnica de fragmentação da tela. Porém, para os menos exigentes, com certeza, trata-se de um clipe atraente e bem gostoso de ser assistido.

No mundo atual marcado pela tecnologia e pelos registros efêmeros de imagens, o diretor Justin Francis brinca com as fotos digitais tiradas com o celular. Logo a primeira imagem é a do telefone de Sean Kingston com sua foto. Ele está na porta de um bar e observa a aproximação de três garotas que aparecem na tela fragmentada na vertical e usam o mesmo figurino – casaco verde e blusa listrada em vermelho e branco. Ao longo do clipe, aumentará o número de garotas. Todas contracenarão com o rapper, que passeará com elas pelas ruas, as levará para tomar sorvete e paquerar diante de uma fonte, em cenas típicas do início de um forte romance.

Intercalando as imagens com as garotas, Sean Kingston aparecerá com sua banda tocando num bar lotado. Aos poucos, porém, o espectador descobrirá que o tal público é formado pelas meninas com a mesma roupa. No final, elas desaparecerão do local aos poucos e o rapper terminará tocando com a platéia completamente vazia.

Outra seqüência do clipe, que, apesar de ser vista aos montes por aí, faz todo sentido neste caso é a da câmera passeando pelas garotas diante de uma rua ensolarada com casas tão coloridas que mais parecem maquetes. As meninas olham direto para o espectador, acenam, fazem caras e bocas, e mandam beijinhos.
Essas imagens combinam com perfeição com uma letra que indica o rompimento de um grande amor, com a garota indo embora. “Agora estou sentado numa cadeira sem ninguém aqui e estou me sentindo completamente sozinho / Pensando em mim como uma desgraça porque meu amor se foi / Eu estou sentindo falta dela e eu sei que ela está sentindo a minha / Faz dois anos e na metade de julho três” (“Now I’m sittin’ in a chair with no one here / And I’m feelin’ all alone / Thinking to myself like / Damn, why my baby up and gone / It’s like I’m missin’ her and I know she’s missin’ me / It’s been two years and a half in july will make it three”).

"Me Love", portanto, não é um grande clipe, mas cumpre com perfeição seu objetivo que parece ser atrair o jovem espectador com imagens de belas garotas, uma historinha de fácil e rápida compreensão, e cenas do rapper cantando com sua banda. No final, fica-se com a sensação de ter visto algo bastante divertido e nem um pouco cansativo.

* O norte-americano Justin Francis é o diretor de "Unbreakable", da Alicia Keys; "Somewhere Only We Know", do Keane; "Don’t Lie", do Black Eyed Peas; "Hate It Or Love It" (50 Cent feat. The Game) e "Like Toy Soldiers" (Eminem), entre outros.Promoção Me Leva TVZ - Quer ir ao show do Sean Kingston e entrar no camarim? Mande o seu TVZé!

Postado por Guilherme Bryan em 03.03.2008. Comente! () | Permalink



SORRY (BLAME IT ON ME)
AS VÁRIAS HISTÓRIAS DE AKON



A canção Sorry ("Blame It One Me"), do cantor de R&B e hip-hop Akon, é extremamente visual e narra várias histórias simultâneas, o que facilitou bastante o trabalho do diretor Chris Robinson. Afinal, bastava aproveitar as situações descritas na introdução da letra da música para obter um clipe, no mínimo, interessante. Porém, ele foi além e obteve um vídeo que, em meio a obviedades, atrai por seus efeitos de áudio e imagem.

A primeira imagem do clipe é a de uma garota sentada de roupão numa escada com o telefone na mão. Sua situação é descrita apenas na terceira estrofe da introdução da canção: (“Querido, sou eu. É aniversário do bebê. Estou com saudades. Queremos que você volte para casa. / Me ligue de volta. Amo você. Tchau”).

O telefone toca e um DJ, enquanto trabalha, vê a imagem de sua namorada na tela do seu celular. A história é descrita na primeira estrofe: (“Por que ainda está em casa... / Venha até a boate. Está uma loucura!). Surge a garota, que experimenta um vestido azul na frente do espelho.

A terceira história é a da mãe, que aparece lendo e sofrendo com uma carta escrita por seu filho, que a fala no vídeo e faz parte da canção: “Mãe. Agradeço por estar lhe escrevendo esta carta. Tenho muito tempo para pensar aqui. Parecemos animais enjaulados”.

Vários trechos de programas de notícias da televisão e palavras que piscam rapidamente na tela, anunciando que Akon é acusado de executar uma garota de 14 anos. É quando começa a letra da canção de fato com Akon em frente a um muro cinza, onde abrem cinco “janelas” com as imagens dos personagens do videoclipe.

Enquanto imagens “saem” do muro para dar continuidade a cada uma das narrativas paralelas, Akon canta: “As life goes on, I’m starting to learn more and more about responsability / And I realize that everything I do is affecting the people around me. / So I want to take this time out to apologize for things that I’ve done, / Things that haven’t occurred yet, / And things that they don’t want to take responsability for” (“Como a vida passa, estou aprendendo mais sobre responsabilidade. / E eu me dei conta de que tudo o que faço está afetando as pessoas à minha volta. / Então, quero aproveitar este tempo livre, / Para me desculpar pelas coisas que fiz / Pelas coisas que ainda não aconteceram / E pelas coisas que eles não querem assumir”).

A garota da primeira história aparece brigando com seu companheiro na frente do filho, enquanto ele pega suas malas e vai embora. Ele bem telefona no dia do aniversário do menino, mas bem no momento em que cantam “parabéns” e ninguém escuta. O garoto olha desolado pela janela.

A segunda história é a que tem o desfecho mais feliz. A garota arruma uma sacola com roupas e sai de casa usando o vestido azul, enquanto seus pais vêem televisão. No final, ela aparece toda feliz dançando entre outros jovens na festa animada pelo seu namorado DJ.

O final mais trágico está reservado para o episódio em que a mãe lê a carta de seu filho. O rapaz e sua gangue tenta roubar um carro, mas ele é capturado pela polícia. Já dentro da viatura, ele vê sua mãe do lado de fora desesperada.

Em meio às histórias, Akon canta diante do muro e aparece olhando pela janela de um apartamento até ser levado por uma garota para dar uma entrevista coletiva, onde a luz dos flashes “estouram” na sua face. Vale destacar aqui a excelente edição de áudio, que insere ruídos extremamente importantes para tornar cada um dos episódios ainda mais dramáticos. No final do clipe, ele deixa a sala de entrevista e há um corte para sua imagem diante do muro cinza para o qual se vira e caminha em direção às janelas.

Não estamos diante de algo inovador, muito pelo contrário, há várias imagens-padrão vistas praticamente o tempo todo na televisão. Mesmo assim, em “Sorry (Blame It On Me)”, o diretor Chris Robinson demonstra como é possível se valer positivamente de uma letra bastante descritiva e, ao acrescentar imagens aos versos, obter algo ainda mais criativo.

* Chris Robinson é conhecido por dirigir videoclipes principalmente de artistas de hip hop norte-americano como Snoop Dogg (Beautiful), Nas (I Can), Jay Z e Beyoncé (’03 Bonnie & Clyde) e Alicia Keys (A Women’s Worth e You Don’t Know My Name), entre outros.

Postado por Guilherme Bryan em 02.12.2008. Comente! () | Permalink



ATÉ QUANDO?
GABRIEL O PENSADOR PASSIVO E CONTESTADOR



O videoclipe Até Quando?, dirigido por Oscar Rodrigues Alves e Nando Cohen para o Gabriel O Pensador em 2001, além de ter revelado um grande montador para o audiovisual brasileiro – Daniel Rezende (depois indicado ao Oscar pela montagem de Cidade de Deus) – pode ser considerado uma das produções nacionais mais criativas e originais do gênero.

Gabriel O Pensador aparece com o cabelo solto, camiseta e calça cinza, estirado numa poltrona também cinza num fundo vazio da mesma cor. Enquanto ele fecha os olhos, numa atitude de total desânimo, sua imagem se multiplica e aparece uma réplica do cantor também sentada, mas de camiseta regata preta, que começa a cantar, gesticular e fazer sinais de acordo com os versos da letra da canção. Trata-se, na verdade, de dois personagens – o primeiro pacífico e submisso, e o segundo contestador – que interagem o tempo inteiro entre si e com desenhos que são inseridos ao longo de todo o videoclipe.

Diante da tonalidade cinza dominante no videoclipe, a animação traz cores vivas para a tela, como amarelo, azul, vermelho e cor-de-rosa, e desenhos de traços fortes e agressivos, que surgem principalmente na cabeça e em torno do Gabriel O Pensador contestador. Esse é o caso de uma cabeça amarela que explode com um tiro de revólver, totalmente condizente com os versos: “A polícia só existe pra manter você na lei / Lei do silêncio, lei do mais fraco: / Ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco”.

Algumas animações também ocupam a imagem do Gabriel O Pensador submisso. Primeiro com o desenho de uma roupa amarela presa que envolve e prende o corpo do personagem com cadeado e lhe fornece braços cruzados. Depois, quando ele se encolhe todo na poltrona e surge o desenho do corpo e das patas de uma águia que o ataca. No final, o corpo desse personagem também se torna o desenho de um esqueleto.

Há nesse videoclipe uma total interação com a letra da canção. A começar pelos sinais realizados pelo Gabriel O Pensador contestador, que, aos poucos, começa a incomodar o personagem submisso, o qual se mexerá na poltrona e chegará quase a esboçar algum tipo de reação que nunca se concretiza. Depois as ilustrações também fornecem novos significados aos versos da canção, cujo refrão é uma nítida demonstração da força criativa e da preocupação social de seu autor: “Até quando você vai levando porrada, porrada? / Até quando você vai ficar sem fazer nada? / Até quando você vai levando porrada, porrada? / Até quando vai ser saco de pancada?”.

É interessante observar outro aspecto enriquecedor de Até Quando? Trata-se de uma cuidadosa edição de som, que insere alguns ruídos na canção, principalmente com o aparecimento das animações na tela e nos momentos em que a tela pisca, e também de um processo de gravação acelerada da canção que, quando colocada na rotação correta, torna os gestos do Gabriel O Pensador ainda mais rápidos, fortes e agressivos. Para verificar isso, basta prestar atenção no trecho “Acordo, não tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar / O cara me pede diploma, não tenho diploma, não pude estudar / E querem que eu seja educado, que eu ande arrumado, que eu saiba falar / Aqulo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá”.

Até Quando? pode ser considerado um videoclipe simples, uma vez que não há as constantes mudanças de cenários e figurinos, e nem uma montagem frenética e excitante com centenas de cortes que estamos acostumados a ver em outros videoclipes. Está justamente aí sua riqueza: praticamente num único plano-seqüência, ele apresenta um inovador e rico trabalho de pós-produção que o torna um dos videoclipes mais inovadores e criativos da história desse gênero audiovisual no Brasil.

Postado por Guilherme Bryan em 01.04.2008. Comente! () | Permalink




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Michael Jackson - Black Or White
Madonna - Dear Jessie
Fresno - Uma Música
The Buggles - Video Killeed The Radio Star
Amy Winehouse - Love Is A Losing Game
Pitty - Pulsos
Charlie Brown Jr - Pontes Indestrutíveis
Capital Inicial - Aqui
CPM22 - Nossa Música
Nx Zero - Pela ùltima Vez
Cachorro Grande - Roda Gigante
Ramirez - O Produtor
Britney Spears - Break The Ice
Ana Carolina - Vai
Vanessa da Mata & Ben Harper - Good Luck
Sean Kingston - Me Love
Akon - Sorry (Blame It On Me)
Gabriel O Pensador - Até Quando
Gwen Stefani - Now That You Got It e Early Winter
Marisa Monte - Diariamente
The Police - Don't Stand So Close To Me 86
Justice - D.A.N.C.E
Metallica - Mama Said
Joy Division - Atmosphere
Britney Spears - Gimme More
Diana Krall - The Look of Love
Jean François Coen - La Tour De Pise
Bob Dylan - Subterranean Homesick Blues
Cranberries - Just My Imagination
Madonna - Like A Prayer
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Linkin Park - What I've Done
Negra Li - Você Vai Estar Na Minha
Pitty - Na Sua Estante
Marcelo D2 - Dor de Verdade
Ira! - Eu Vou Tentar
Capital Inicial - Eu Nunca Disse Adeus
Panic At The Disco - But It's Better If You Do
Eagle Eye Cherry - Save Tonight
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Aerosmith - Cryin'
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