“LOVE IS A LOSING GAME”
A TRISTE E FORTE AMY WINEHOUSE
O que torna um videoclipe inesquecível? A pergunta que atormenta a maior parte dos diretores pode ter uma resposta bastante simples, porém difícil de ser atingida. Ele precisa ter uma seqüência de imagens envolventes que tornem a canção ainda mais atraente e imprimam a personalidade da artista ou da música de modo único e revelador. É justamente o que acontece no sensacional “Love Is A Losing Game”, último single do álbum “Back To Black”, de 2006, de Amy Winehouse.
Uma artista poderosa e, ao mesmo tempo, extremamente carente é o que aparece o tempo todo no vídeo em imagens, em sua maioria em câmera lenta ou praticamente fixas na tela, que vão se unindo de modo bastante poético e, claro, triste. O vídeo começa apenas com os olhos de Amy Winehouse se movimentando. Há uma fusão a imagem de suas mãos. É quando aparece a artista de corpo inteiro num fundo preto começando a cantar. A tela começa a escurecer e se divide com duas imagens da cantora de perfil – uma colorida e outra em preto e branco. Não dá para negar a imensa sensualidade e beleza que essas imagens flagram da cantora.
O vídeo é quase um jogo entre fotografias e imagens com movimentos delicados de Winehouse, o que fornece uma força ímpar à canção. Preste atenção no incrível jogo de cores que criado entre cenas em preto e branco e outras com cores como azul claro, amarelo, etc., sempre mostrados com delicadeza. Outro aspecto importante é que as imagens acompanham todas as nuances e viradas da música. Não há, e nem poderia haver, grandes choques entre imagens e melodia.
Este talvez seja o melhor registro já visto das complexidades de uma artista, que aparece extremamente forte e poderosa no palco, mas frágil e prestes a se quebrar fora deles. Um dos momentos mais deslumbrantes e, ao mesmo tempo, superficiais é quando a tela congela na imagem do olho da cantora. No final, o que se tem nesse jogo penetrante de fusões de imagens é o retrato da imensa solidão que envolve a artista que se tornou a maior sensação mundial dessa década, o que se comprova nas imagens em que ela parece tentar tocar nas pessoas da platéia sem conseguir, em que observa com tristeza pessoas se divertindo e em que tenta se esconder dos flashes e das câmeras. Mesmo o possível namorado do clipe parece bastante distante de seu universo. As duas últimas imagens são exemplares nesse sentido. Na metade esquerda da tela, Amy em preto e branco com a mão no rosto abaixado; e, na metade direita, ela, com olhar perdido, fixa no nada.
O vídeo, portanto, é bem de acordo com a forte letra da canção: “Auto-confessado, profundo / Até as fichas acabarem / Você sabe que é um apostador / O amor é uma partida perdida / Apesar de estar bastante cega / O amor é fato designado / Lembranças machucam minha mente / O amor é um fato resignado / Apesar das oportunidades fúteis / E das risadas dos deuses ... / Agora a cena final / O amor é um jogo perdido” (“Self professed ... profound / Till the chips were down / Know you’re a gambling man / Love is a losing hand / Though I’m rather blind / Love is a fate resigned / Memories mar my mind / Love is a fate resigned / Over futile odds / And laughed at by the gods / And now the final frame / Love is a losing game”).
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Guilherme Bryan
em 07.15.2008. Comente!
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Indicados ao Prêmio Multishow 2008:
“PULSOS”
PITTY PULSA EM CLIPE AO VIVO
Ao invés da velha discussão se um trecho de show é ou não videoclipe, o que vale a pena prestar atenção em “Pulsos” é numa estética muito bem definida e clara de como se filmar uma canção ao vivo. Definitivamente parece ter ficado para trás as normas de se focalizar praticamente todo o tempo a vocalista em close e a vibração da platéia com imagens nítidas para não incomodar o espectador.
A diretora Joanna Mazzuchelli, com boa bagagem de gravação de shows para DVDs, acerta em cheio em “Pulsos”, da Pitty, gravado em julho de 2007 no Citibank Hall, em São Paulo, como parte do DVD “{Des} Concerto Ao Vivo 06.07.07”. A maior qualidade do número é que a câmera parece passar despercebida tanto para os artistas no palco, que quase nunca a encaram em close aproximado, quanto para a platéia, a qual é focalizada poucas vezes e, mesmo assim, em sua maioria, em belíssimos planos aéreos.
Também vale a pena prestar atenção no modo com o ritmo das imagens dialoga com a canção. Claro que, nos momentos, em que a música torna-se mais vibrante e intensa, há maior granulação das imagens, balanços de câmera e cortes frenéticos. Porém, na maior parte do tempo, a câmera passa a impressão de alguém que acaba de chegar num local. Enquanto procura se familiarizar com o ambiente, ela faz questão de observar todos os detalhes. Preste atenção, por exemplo, em como os músicos são flagrados de modo inusitado.
Outro aspecto sensacional ao qual a equipe de produção do show, liderada por Rafael Ramos, parece ter dado uma atenção extremamente especial, e Mazzuchelli para registrar no vídeo, é a iluminação. É linda a variação de tons preto, cinza e marrom predominantes. Além de provocarem a vista do espectador, em meio ao que antes era considerado errado (granulações, trepidações e imagens fora de foco), eles combinam perfeitamente com os versos da canção: “E um dia se atreveu a não olhar pro alto / Tinha um céu, mas não era azul / No cansaço de tentar, quis desistir / Se é coragem eu não sei / Tenta achar que não é assim tão mal / Exercita a paciência / Guarda os pulsos pro final / Saída de emergência / E um dia decidiu, quis terminar / Só mais um gole, duas linhas horizontais / Sem a menor pressa, calculadamente / Depois do erro, a redenção”.
A roqueira Pitty também prova mais uma vez no palco porque é uma artista tão premiada e querida e admirada pelo público jovem. Sua vibração é contagiante e o modo como interpreta, no caso, “Pulsos”, é extremamente envolvente. Sem cair para a pieguice, risco que parece correr sem medos, a garota encara a platéia de frente e lhe dá o que mais quer: uma força vocal não mais surpreendente e um carisma arrasador.
Desse modo, a qualidade do trabalho de Pitty e Joana Mazzuchelli é tão envolvente, que até os estudiosos do audiovisual deixam de lado a questão que faz ou não de “Pulsos” um videoclipe para se envolverem com uma espécie de balé visual que prende a atenção do começo ou fim do número. E dá muita vontade de quero mais ...
PS: O autor desse blog se esqueceu de completar o texto, pois foi correndo a alguma megastore tratar de adquirir o DVD ao vivo da Pitty, o que deveria já ter feito há muito tempo.
* Joana Mazzuchelli é diretora dos videoclipes de, entre outros, Jota Quest (Do Seu Lado), Kid Abelha (Peito Aberto e Poligamia), Marjorie Estiano (So Easy), Nação Zumbi (Blunt Of Judah), e Thaíde e DJ Hum (Sr. Tempo).
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Guilherme Bryan
em 06.20.2008. Comente!
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Indicados ao Prêmio Multishow 2008:
PONTES INDESTRUTÍVEIS, DO CHARLIE BROWN JR.
A FORÇA DA ANIMAÇÃO SUJA
Esqueça todos aqueles desenhos bonitinhos que na infância você foi treinado a considerar uma animação de bom gosto e se deixe envolver pela riqueza de traços agressivos e de “sujeiras audiovisuais”. O que importa é chocar e desafiar os padrões estabelecidos. Esse parece ser a maior lição do videoclipe Pontes Indestrutíveis, criado por Ludmilla Rossi (MKT Virtual) e Matheus Ruas (Studio Fly) para o Charlie Brown Jr., com tecnologia de animação em 3d. Claro que não se trata de grande novidade. Muitos clipes já se valeram da mesma técnica. Porém, não deixa de ser um dos bons exemplos.
Tendo como fundo a parte instrumental da canção, a animação começa mostrando aves voando no céu e, em seguida, sendo rapidamente devoradas por peixes no mar. Essa cena colorida se torna preto e branco e vai parar no jornal que cobre um mendigo deitado num banco de praça. Por ele, passa um garoto de skate.
Chorão começa a cantar e o rapaz do skate faz várias manobras na rua e passa por um carro batido. Aparece o desenho de um rapaz sem boca, de boné para trás e camiseta verde que parece cantar e gesticular para a câmera: “Tomo cuidado para que os desequilibrados não abalem minha fé pra eu enfrentar com otimismo essa loucura”.
Os versos “Os homens podem falar, mas os anjos podem voar / Quem é de verdade sabe quem é de mentira” são acompanhados pela imagem de dois rapazes brigando e do skatista saltando. Em seguida, este último continua deslizando pelas ruas até que uma placa quase cai em cima do garoto, que apanha o skate e chega provavelmente em sua casa, onde há várias imagens religiosas, numa espécie de altar, e uma senhora de vestido rosa – provavelmente sua mãe – apanhando de um homem com uma garrafa na mão. Nada mais contrastante para acompanhar “Cuide de quem corre do seu lado e de quem te quer bem / Essa é a coisa mais pura”.
Se o que parece interessar é dar novos sentidos aos versos cantados por Chorão, o que mais do que um garoto vendo televisão para “Fragmentos da realidade estilo mundo cão, tem gente que desanda por falta de opção”? É quando as palavras da canção aparecem escritas no vídeo sujas e anárquicas, acompanhadas de outros desenhos engraçados, como os porcos chauvinistas (políticos) de Brasília. O mais interessante, no entanto, é que as palavras na tela são acompanhadas pelos movimentos de um skatista, que passeia por entre elas.
Nas ruas da cidade, um homem bate numa mulher ao som de, ironicamente, “O que importa é se sentir bem, o que importa é fazer o bem / Eu quero ver meu povo todo evoluir também”. A mulher se transforma numa professora. A repetição dos versos é ilustrada por um homem com uma garrafa na mão maltratando um cachorro. No entanto, na terceira vez que Chorão canta, uma mulher que está com um rapaz numa viela suja, como num passe de mágica, aparece recebendo flores num campo florido e bonito.
O skatista realiza novas manobras até entrar num galpão onde o Charlie Brown Jr. está tocando. Ele dança até ir parar no meio de um terreno baldio rodeado de fogo. É quando, numa das cenas mais bonitas e fortes, a câmera treme e realiza um movimento de 360 graus em torno do rapaz. “Difícil é entender e viver no paraíso perdido / Mas não seja mais um iludido / Derrotado e sem juízo”.
O clipe termina com a banda tocando diante de grandes caixas de som para uma galera, enquanto o skatista encontra uma garota com quem caminha em direção de pontes indestrutíveis, como indica a letra da canção: “Viver, viver e ser livre / Saber dar valor para as coisas mais simples / Só o amor constrói pontes indestrutíveis”. Essa imagem vai parar na televisão, que sai do ar enquanto um homem ronca na poltrona.
“Pontes Indestrutíveis”, portanto, é um interessante videoclipe de animação que, escapando das regras do que seria um “bom” desenho, ajuda a enriquecer os versos da canção, dando-lhe novos sentidos ou fornecendo imagens praticamente literais. No final, fica-se a sensação de ter visto algo extremamente agradável e marcado pela simplicidade.
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Guilherme Bryan
em 06.12.2008. Comente!
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Indicados ao Prêmio Multishow 2008:
“NOSSA MÚSICA”, DO CPM 22
QUEBRA-CABEÇA AUDIOVISUAL
Indicado ao prêmio Multishow 2008, o videoclipe “Nossa Música”, dirigido por Ricardo Spencer para a banda CPM 22, é uma das boas realizações do ano em função de realizar uma espécie de quebra-cabeças audiovisual, onde a chave para a resolução da história parece estar na interpretação dos versos da canção. Desse modo, é bem provável que a sua conclusão seja bastante diferente da de seus amigos. No entanto, o que importa é se deleitar com imagens fortes e atraentes, com forte presença do diretor de fotografia Rodrigo Toledo.
A tela toda escura com apenas alguns detalhes iluminados passa a sensação de uma noite deserta e fria. A câmera desliza, como se estivesse à procura de algo, pelo lado de fora de um apartamento colocado para alugar. Em meio aos primeiros acordes da canção que rompem o silêncio inicial, uma garota surge por detrás da câmera e caminha por uma rua vazia. Para quem mora ou conhece São Paulo, é possível identificar o local como sendo o Minhocão.
Em close, o rosto da garota demonstra todo seu desespero e angústia, expressões que ficam ainda mais forte em conjunto com a câmera trepidante, as imagens um pouco embaçadas e os versos iniciais da canção, composta por Wally: “Lembro que disse: / É hora de seguirmos sozinhos / Por nossos sonhos despedaçados / Às vezes a vida / Parece uma guerra eu sei / Sem qualquer sentido”.
Após o registro de alguns detalhes de outros apartamentos, como uma pessoa assistindo televisão, a garota começa a correr desesperada acompanhando a aceleração da música, que se transforma num elétrico punk rock. Há três cortes: para o rosto de um homem parado, para os detalhes de uma cozinha com a mesa posta e uma pessoa tentando melhorar a sintonia da televisão e para uma garota deitada numa banheira rodeada de velas acesas.
Os versos “Lembro que disse / É hora de seguirmos sozinhos, / Pois o seu tempo acabou, / Se ouvir essa música essa noite” são o ponto alto do videoclipe. Com cortes bruscos e rápidos, e algumas “sujeiras” audiovisuais, mostra imagens, em preto e branco, de um casal diante da janela de um apartamento, as quais são intercaladas com detalhes da moça e de um rapaz nos espaços noturnos iniciais.
Há uma pequena pausa na música que é utilizada imageticamente pelo diretor, como se ali iniciasse a segunda parte do videoclipe. Agora é um rapaz que caminha a noite. Ele passa por dentro de um bar e diante de uma banca de jornal fechada até aparecer numa rua embaixo de um viaduto. A câmera realiza uma espécie de vôo para flagrar em cima do tal viaduto a moça do começo do vídeo passando. Ou seja, é mais uma confirmação do desencontro do casal, tema da canção.
A moça começa a correr novamente com a nova aceleração da música. Uma curiosidade é notar que, diante de tanta dramaticidade, ela quase cai. Outro rapaz brinca de boxe diante do espelho. Novo corte para a garota da banheira lendo uma revista, sob o suposto olhar de uma senhora. O clipe termina com a personagem principal passando também pelo bar e pela banca de jornal até entrar no apartamento do início e parar na cozinha ao lado da televisão.
Esse é um videoclipe bastante interessante pelo fato de apresentar imagens que só estabelecerão relações umas com as outras a partir da interpretação da letra da canção, não havendo uma simples transposição desta para o vídeo. Mesmo assim, é possível se deleitar com elas e obter diferentes conclusões. Mais importante do que isso, no entanto, é a maneira inteligente e competente com que o diretor emite de modo indiscutível seu ponto de vista a respeito da banda sem precisar exibir uma imagem sequer de seus integrantes em ação.
* Ricardo Spencer é o diretor para, entre outros artistas, Pitty (Déja-Vu e Memórias) e Cachorro Grande (Roda-Gigante).
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Guilherme Bryan
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“AQUI”, DO CAPITAL INICIAL
FOTOGRAFIAS E CLIMAS NUM CLIPE SURPREENDENTE
Poucos videoclipes são tão contagiantes na primeira vez em que são vistos quanto Aqui, dirigido pelos estreantes Fred Ouro Preto e Carina Zaratin, para o Capital Inicial. Sem se tratar de uma grande produção com orçamentos milionários, que caracteriza o trabalho da banda no formato, esse clipe vale-se da criatividade no aproveitamento de recursos aparentemente simples, como distorções e mistura de vídeo com fotografias em câmera lenta.
O clipe começa com várias fotografias de detalhes de cabos, fios, palhetas, microfones e fotos se unem umas as outras numa velocidade alucinante. A câmera focaliza um retrato do Capital Inicial dependurado na parede atrás de um sofá onde se encontra uma garota deitada de lingerie. A câmera focaliza flores caídas no chão que ressurgem, no plano seguinte, registradas numa fotografia caída em outro chão, agora do local onde está o vocalista Dinho Ouro Preto, que, sentado, começa a cantar olhando para a câmera. Uma foto em cima de uma mesa, que a câmera encontra, faz com que o clipe retorne para a sala da garota. Ela pisa nas flores que ressurgem num painel da parede do espaço onde a banda toca.
Outra seqüência similar e talvez a mais bonita do clipe é a que mostra Dinho Ouro Preto sentado no chão e, na frente dele, um disco girando na vitrola. Em seguida, o mesmo disco surge nas mãos do baterista Felipe Lemos, que o guarda numa capa de papelão. Mais uma: a câmera focaliza o rosto da garota, que aparece numa foto queimada pelo baixista Flávio Lemos. É esse ordenamento de imagens a característica mais importante, inovadora e criativa desse vídeo, que utiliza um ritmo, denominado slow motion (câmera lenta), que faz lembrar o consagrado pelo diretor francês Michel Gondry – um dos gênios do videoclipe – em Like A Rolling Stone, com Rolling Stones.
É preciso destacar mais dois aspectos bastante peculiares do videoclipe. O primeiro é o contraste provocado entre imagens focalizadas por um mesmo ângulo coloridas e, logo em seguida, em preto e branco. O segundo aspecto é a utilização caprichada e com boa dose de surpresa de imagens propositalmente desfocadas, que deixam ainda mais claro tratar-se este de um clipe artístico, onde, mais importante do que narrar uma história ou retratar a letra da canção, está a criação de climas envolventes para o espectador poder se deliciar com belos retratos. O melhor exemplo é a seqüência em que a câmera chacoalha ao focalizar o rosto da garota e o deforma, transformando-o em manchas azuis.
A síntese de todas essas sensações parece estar na performance da banda que toca de frente para a câmera num espaço em que há dezenas de fotografias pregadas nas paredes. É linda também a seqüência do guitarrista Yves Passarel que tem sua imagem azulada enquanto toca uma guitarra amarela diante de um fundo infinito preto, em câmera lenta. A câmera registra a mancha amarela criada pelo movimento do músico com seu instrumento. Efeito que é repetido no final do clipe com a luz propagada pelas lâmpadas caídas no chão do ambiente onde a banda tocou.
Há de se destacar também a simplicidade do videoclipe “Aqui”, que se vale bastante de singelos efeitos de pós-produção e de imagens registradas numa mesma sala de paredes brancas em diferentes circunstâncias. Aspecto, aliás, totalmente de acordo com a bonita letra da canção: “Aqui onde as horas não passam / Aqui onde o Sol não me vê / Aqui onde eu moro / Não existo sem você / Me olho no espelho / E me vejo do avesso / O mesmo rosto / Que eu não reconheço”.
Especial: vamos fazer uma entrevista com o Capital Inicial. Mandem perguntas aqui nos comentários!
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Guilherme Bryan
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“PELA ÚLTIMA VEZ”, NX ZERO
NARRATIVA COM A BANDA
Lembra-se dos inúmeros videoclipes do Foo Fighters em que o vocalista Dave Grohl aparece fantasiado de gorda, nerd, aviador, etc., como personagem principal de uma história que acompanha a canção que ele interpreta? Pois “Pela Última Vez”, dirigido por Fabrizio Martinelli e Paulinho Caruso para a banda NX Zero é exatamente igual. Ou seja, vale-se de uma fórmula bastante manjada, mas que continua esbanjando a mesma capacidade de encantar o espectador.
O clipe começa com uma garota de óculos escuros e cachecol de pele chegando à festa de uma amiga, igualmente patricinha exuberante. Um detalhe importante é que um garoto se joga na piscina da casa em plena luz do dia. Ela fala ao telefone celular e escuta-se ao fundo o som ambiente. A câmera a acompanha enquanto ela conta a amiga que o pai da dona da casa convidou o NX Zero para tocar. Ela cumprimenta as amigas que estão na casa. Há um corte para rapazes de óculos, interpretados pelos próprios integrantes da banda, com embrulhos na mão e a música começa.
A câmera focaliza os rostos dos garotos e das meninas a fim de esbanjar as diferenças clichês entre nerds, que se penteiam e fazem caretas, e patricinhas, que movimentam os cabelos esvoaçantes, sorriem discretamente e trocam beijos entre si. Um dos garotos toma coragem e entrega a flor que trouxe para uma das garotas, mas espirra em cima dela. Há um close exagerado no rosto do rapaz, totalmente constrangido. Em seguida, enquanto ela ri, ele se lamenta com os amigos.
É nesse instante que chegam a casa os integrantes do NXZero, agora como eles mesmos. As meninas gritam, os beijam e tiram fotos com eles, sob os olhares enfurecidos dos outros rapazes. Há um realce na diferença de estilos dos roqueiros, com bonés, bermudas, camisetas e cabelos desorganizados e espetados, e dos nerds, arrumados de maneira extremamente formal e com gel no cabelo bem alinhado. Elas sobem com os músicos para o quarto que será utilizado como camarim, enquanto os outros meninos pensam num modo de se vingar.
A idéia dos garotos é fazer os integrantes do NX Zero beberem algo com remédio e, depois que eles capotarem, tomar suas roupas e assumir seu posto no show, atraindo desse modo finalmente a atenção das meninas. É quando aparece o pai da aniversariante dizendo que queria levar a Madonna, mas que a filha preferiu os rapazes da banda paulistana. Depois de um rápido constrangimento, os nerds começam a tocar e levam o público ao delírio. O clipe termina com o rapaz que está no lugar do vocalista caindo na piscina e uma das garotas entrando sem querer no quarto e encontrando os músicos verdadeiros amarrados.
O que mais atrai em “Pela Última Vez” é o exagero na utilização de clichês, tornando-os ainda mais caricatos, exatamente o que fez com que os clipes do Foo Fighters e de outras bandas obtivessem tanto sucesso. Ou seja, tem-se a sensação o tempo todo de algo absolutamente “fake” e próximo das comédias do cinema mudo e das histórias em quadrinhos infantis.
* Fabrizio Martinelli é guitarrista da banda Hateen e diretor de clipes como Você Pode ir Na Janela, do Gram; e Paulinho Caruso é diretor de curtas-metragens e de clipes como Doce Ilusão, do Banzé.
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em 04.25.2008. Comente!
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“RODA GIGANTE”, DO CACHORRO GRANDE
CLIMA PSICODÉLICO E FAMILIAR
Os mais ilustres precursores dos videoclipes são os promos realizados para algumas canções dos Beatles na segunda metade da década de 1960. Eles são tão marcantes que há quem os considere de fato os primeiros clipes da história. Um deles acaba de ter seu estilo utilizado como inspiração no novo vídeo da banda gaúcha Cachorro Grande, “Roda Gigante”, dirigido por Ricardo Spencer e filmado no sítio da família do guitarrista Marcelo Gross, em Sobradinho, no interior do Rio Grande do Sul.
A idéia é colocar a banda tocando num descampado e valer-se de uma fotografia impactante, que abusa dos tons psicodélicos das cores fortes e das imagens bastante embaçadas, cheias de riscos e chuviscos, e marcadas por uma luz natural em alguns momentos estourada. Esse estilo, aliás, também marcou bastante a carreira de bandas como Pink Floyd.
Rodado em câmera super 8 (formato que surgiu nos anos 60 para uso amador, mas seguiu com sucesso até meados da década de 80), o clipe começa com os músicos se ajeitando com seus instrumentos. Quando são escutados os primeiros acordes da canção, a câmera começa a espreitá-los por entre folhas e árvores. Ou seja, a intenção aqui é mostrar os músicos, extremamente bem-vestidos com ternos, chapéus e lenços, por ângulos incomuns, como se estivessem sendo filmados sem conhecimento prévio.
Chamam atenção também os cortes secos, os closes aproximados dos músicos, algumas imagens sem sentido aparente e a câmera que, em muitos momentos, parece chacoalhar. Esses recursos são utilizados, até certo modo discretamente, para fornecer mobilidade ao clipe e, com isso, torná-lo cada vez mais atraente ao espectador.
Essa sensação é totalmente condizente com os versos da canção: “Com você eu consigo enxergar bem mais longe / Sem cartão colorido mesmo muito distante / Parece que o tempo todo passou nesse instante / O mundo inteiro girando como uma roda gigante / E eu não quero mais descer / Não tenho medo de você / Eu não preciso falar e você está me entretendo / Eu só preciso te olhar e sei o que está acontecendo / Até parece um sonho, mas estou acordado / Se estou com meus pés no chão posso voar bem mais alto”.
No entanto, se o tal promo dos Beatles se restringia a mostrar a banda tocando praticamente do mesmo ângulo, com poucos cortes e mudanças de câmera, “Roda Gigante” mostra também pessoas locais, como duas lindas garotinhas louras que brincam no balanço, correm pelo campo e, depois, fazem caretas para a câmera, e por uma mulher e um senhor, que observam os músicos passearem pela área. Uma das cenas mais bonitas, no entanto, é quando um garotinho sem camisa bate no tambor da bateria.
O clipe termina com as três crianças correndo por uma estrada de terra de costas para a câmera. “Usamos os atores locais pra figurar a historinha que nós bolamos a partir da letra, ficamos impressionados como eles, os Scherer, foram naturais. Afinal, eles tinham que interpretar eles mesmos no lugar onde vivem. Só que uns cem anos atrás. Mas faltavam as crianças que eram muito importantes no roteiro meio doido que fizemos com nosso grande diretor”, relata a banda em seu blog oficial.
* Ricardo Spencer é o diretor de videoclipes para artistas como Pitty (Déja-Vu e Memórias) e o próprio Cachorro Grande (Bom Brasileiro).
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Guilherme Bryan
em 04.22.2008. Comente!
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“O PRODUTOR”, RAMIREZ
NOVOS RUMOS PARA O VIDEOCLIPE
Videoclipe, curta-metragem ou as duas coisas? Essa é a grande pergunta que pode ser feita ao se assistir o sensacional O Produtor, dirigido por Henrique Sauer para a banda carioca Ramirez e estrelado pelo garotinho Zé Guilherme, que tinha pouco mais de 2 anos quando o vídeo foi rodado. Um videoclipe pode ser caracterizado como pequeno vídeo de poucos minutos de duração em que são fornecidas imagens a uma determinada canção. Nada diferente, portanto, do que acontece em O Produtor, espécie de paródia, bem brasileira e transformadora, de outro vídeo que circulou com sucesso pela Internet – Land Lord, estrelado pelo comediante Will Ferrell.
O diretor Henrique Sauer nos deu uma resposta quando foi questionado a respeito: “Um pouco de tudo. Foi uma saída pra divulgar o trabalho da banda de uma maneira diferente. E não tem nada de novo nisso. Somente a plataforma que usamos (a Internet). Beatles, Monkeys, Elvis, Roberto Carlos ... ou Britney Spears, Spice Girls, hahaha. Todos já cruzaram pra (sic) esse universo da ficção para aumentar o raio de ação de seus trabalhos”.
É possível discordar facilmente de que não há nada de novo em O Produtor. Muito pelo contrário. Ele está, de certo modo, muito mais próximo de "Thriller", do Michael Jackson, do que dos filmes estrelados pelos Beatles e por Roberto Carlos, por exemplo. Eis aí talvez a chave para o enigma. De certo modo, apenas uma canção é apresentada nesse vídeo, Sophia, mesmo que entrecortada e incompleta, e apesar da presença de Carmem, de Bizet, logo no início. Portanto, o vídeo pode ser caracterizado como videoclipe em curta-metragem e ele é mais uma prova de como este é um formato audiovisual extremamente aberto a experimentações e avesso a regras rígidas.
Vamos, então, ao videoclipe propriamente dito. Ele começa com imagens de procura de sintonia, como as faixas de cores e os chuviscos de fora do ar, enquanto o nome da banda pisca no centro da tela. É quando, ao som de Carmem, aparecem os créditos de apresentação, como acontece geralmente nos filmes, e são mostrados detalhes da banda se preparando. Ainda em closes aproximados, os rapazes começam a tocar até discutirem e concluírem que estão nervosos devido à proximidade da visita de um produtor “exigente e casca grossa”.
“Minutos depois”, a câmera baixa vai se aproximando em direção a mesma sala onde estão os músicos. Após um dos integrantes da banda dizer: “O produtor vai encher o saco, você tenha certeza”, percebe-se certo constrangimento dos outros, que ficam em silêncio diante possivelmente de uma pessoa estranha. A câmera os rodeia, e apenas ao som do toque do prato da bateria, corta para o produtor, ou melhor, o garoto Zé Guilherme.
Em diferentes cenários, como a sala de ensaio e o estúdio, a atuação de Zé Guilherme é genial, de uma naturalidade espantosa. Com a língua um pouco enrolada e figurino alinhado (camisa branca e bermuda marrom), como é comum em crianças de sua idade, o menino apresenta gestos e movimentos que brincam de modo extremamente voraz com os estereótipos de um produtor musical. Há expressões faciais, como quando aparece zangado no início, e falas inesquecíveis como “Não me faça perder tempo”, “Tá de sacanagem?”, “Tá com medinho?”, “Francamente, não sei por que agüento isso” e “Quer fazer sucesso? Aprende a cantar”. É preciso ressaltar, porém, que, diante de uma interpretação tão intensa, os momentos em que os músicos aparecem como atores tornam-se ainda mais caricatos.
Os maiores méritos estão na direção de Henrique Sauer, que cria um vídeo em que é impossível não se envolver com a história apresentada, que mistura a angústia de uma banda novata diante de um produtor severo e rígido. Porém, em momento algum, a câmera esconde o fato de Zé Guilherme ser uma criança. Muito pelo contrário. Isso é realçado praticamente a cada novo quadro em que ele aparece. Exemplos são quando, sentado numa cadeira, chacoalha pernas e pés, ou então quando pede para o guitarrista se abaixar, tampa os ouvidos, quase transforma sua última fala numa canção, boceja e toma sua mamadeira. O clipe termina com a banda tocando o final da canção e os letreiros aparecendo num fundo preto.
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Guilherme Bryan
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“BREAK THE ICE”
AÇÃO EM MANGÁ, MAIS UMA VEZ BRITNEY
Britney Spears, ao lado de Madonna e Björk, parece ser a popstar que mais se preocupa com a qualidade de seus videoclipes, utilizados como uma “arma” para chocar e transmitir novos estilos de comportamento e cultura. Nas mãos do competente diretor Robert Hales, a artista se transforma numa heroína de mangá no videoclipe de animação “Break The Ice”, terceiro single do álbum “Blackout”.
Livremente inspirado nos desenhos japoneses, o videoclipe começa com um close na boca do desenho de Britney Spears, que está submersa no mar. Desde o primeiro instante, percebe-se uma das características mais marcantes desse vídeo – o realce de contrastes entre imagens bastante coloridas. Em alguns momentos, a câmera fica completamente vermelha, em outros fica verde e assim por diante, o que ajuda bastante a realçar o aspecto dramático do que está sendo exibido.
A heroína reaparece em seguida entre os prédios de uma grande cidade com seus cabelos loiros esvoaçantes. Preste atenção como os cortes são rápidos e bruscos, e como os desenhos mostram ângulos inusitados. Há também imagens trêmulas e um pouco fora de foco, exatamente do mesmo modo que acontece em filmes de ação. Não à toa, a revista norte-americana “Rolling Stone” estabeleceu uma ligação entre esse clipe com o seriado e os filmes “Missão Impossível”.
Uma das seqüências mais bonitas de “Break The Ice” é a queda de Britney Spears do topo de um prédio até uma espécie de vitral amarelo posicionado no chão. Nesse instante, a tela se divide em três partes – uma ocupando a primeira metade vertical e as duas restantes a outra metade. O mesmo recurso voltará a ser utilizado quando metade do rosto de uma espécie de vilão aparecerá do lado esquerdo em vermelho e, em seguida, a metade da face de Britney Spears surgirá do outro lado, num claro e óbvio jogo de referência entre as cores que caracterizam o mal e o bem.
O recurso da câmera lenta e do close em detalhes, por exemplo, de partes do corpo do desenho de Britney Spears ou dos policiais e anônimos é muito bem explorado nesse videoclipe. O que se torna ainda mais forte quando próximo de cenas de bastante agitação, cortes secos e imagens desfocadas e agitadas, típicas do que se denomina “câmera nervosa”.
Totalmente de acordo com os sons presentes na canção original, somados a alguns ruídos inseridos na pós-produção, a narrativa do videoclipe está situada num ambiente futurista, o qual pode ser percebido pela constante presença de naves espaciais, espadas de Jedi e aparelhos eletrônicos (como relógios), e também pela roupa emborrachada utilizada pela heroína, extremamente sensual. Sensualidade esta, aliás, condizente com os versos quentes da canção: “Oooh, parece que estamos sozinhos agora / Você não deve ter medo / Nós somos crescidos agora / Vou me esfregar em você / Até soltar faíscas / Você pode aumentar a temperatura se quiser / ... / Me deixe quebrar o gelo / Me permita te deixar legal / Não quer se esquentar em mim? / Baby, eu posso te deixar bem (quente)” (“Oooh, looks like we’re alone now / You ain’t gotta be scared / We’re grown now / I’m a hit defrost, on ya / Let’s get it blazin’ / We can turn the heat up, if you wanna / ... / Let me break the ice / Allow me to get you right / Once you warm up to me / Baby, I can make you feel hot”).
O videoclipe termina com Britney Spears destruindo uma janela de vidro e se jogando no instante exato em que explode o prédio onde estava – o que é uma cena bastante clichê de filmes de ação. Em seguida, aparece a mensagem: “To Be Continued”. Provavelmente, não é uma novidade. Mesmo assim, é interessante imaginar a possibilidade de, como no cinema, um videoclipe se tornar uma franquia com várias continuações.
* O britânico Robert Hales é designer gráfico e diretor de videoclipes de artistas como Gnarls Barkley (“Crazy”), Richard Ashcroft (“Money To Burn”), Jet (“Put your money where your mouth is”), Kid Rock (“You never met a motherfucker quite like me”) e Justin Timberlake (“LoveStoned”).
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Guilherme Bryan
em 03.20.2008. Comente!
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“VAI”, DA ANA CAROLINA
OS MISTÉRIOS DO CLIPE AO VIVO
Uma faixa de um show registrado em DVD pode e deve ser considerada um videoclipe? Essa é uma questão que incomoda bastante os pesquisadores do assunto. Afinal, em sua origem, videoclipe está associado à criação de imagens para uma única canção. Porém, alguns shows possuem números tão bem realizados e que bem que dá vontade de vê-los seguidas vezes, isolados dos outros. É justamente o que acontece com a versão ao vivo de Vai, retirado do show realizado por Ana Carolina especialmente para o Multishow Ao Vivo.
No ano passado, o CD duplo de estúdio Dois Quartos figurou na lista dos mais vendidos durante meses. Por isso, é mais que provável que faça tanto sucesso quanto a versão ao vivo de versos fortes como “Calma aí! / Que diabo você tá dizendo agora? / Que onda é essa de outro lance pra viver? / Você nem pode estar falando sério ... / Vivi pra você / Morri pra você / Pois então vai! / A porta esteve aberta o tempo todo / Que tá lhe segurando? / Você sabe voar”.
De violão em punho, Ana Carolina aparece luxuosa com um discreto conjunto preto diante de uma cortina vermelha bastante iluminada que dá grande força ao cenário do espetáculo e à sua interpretação forte e comovente. Não sou um grande fã de seu jeito de cantar, mas é impossível não reconhecer que ele consegue encantar multidões.
Os movimentos de câmera realizados pelo diretor Rodrigo Carelli são também bastante discretos. A preferência está em valorizar os closes no rosto de Ana Carolina, também presente constantemente no vídeo em plano americano (da cintura para cima). Os músicos que acompanham a cantora são mostrados em plano inteiro ou no registro de detalhes importantes como suas mãos em ação. A platéia aparece pouco e, mesmo assim, quase sempre de modo disforme. Em raríssimos momentos, o palco aparece inteiro e ao longe no vídeo, mas estas vistas panorâmicas são fundamentais para dar ao espectador a sensação de completude do show.
Em alguns momentos, a câmera passeia livremente por entre os músicos, a cantora e sua backing vocal. Também são valorizados os tons mais escuros, o que ajuda a realçar os detalhes de iluminação do show e criam um contraste bastante forte e bonito com a tal cortina vermelha brilhante posicionada no fundo do palco. Um detalhe interessante é como a cor do violoncelo, por exemplo, quase que se mistura com a da cortina.
Diante de tanta discrição, o que mais chama a atenção nesse “videoclipe” ao vivo é as reações de Ana Carolina diante de seu público, cada vez maior. É latente seu imenso prazer em interpretar as canções cuidadosamente selecionadas para seu repertório. Também é impressionante notar como o diretor Rodrigo Carelli entra na “viagem” da canção e compõe imagens que dialogam em muitos momentos com a os versos ou criam climas para eles. No final, por exemplo, a câmera se posiciona na platéia e mostra detalhes da cantora que quase que se misturam com o público.
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Guilherme Bryan
em 03.14.2008. Comente!
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"BOA SORTE / GOOD LUCK"
VANESSA DA MATTA E BEN HARPER JUNTOS
A originalidade também não é o forte do videoclipe Boa Sorte / Good Luck, dirigido por Bruno Natal, Rafael Mellin, Juarez Escosteguy e Adriano D’Aguiar para marcar o encontro da brasileira Vanessa da Mata com o norte-americano Ben Harper. Essa turma resolveu optar por mostrar detalhes dos ensaios e das gravações no estúdio do mesmo modo como, por exemplo, Guilherme Ramalho dirigira os clipes dos Tribalistas e Gabi Gastal, Dora Jobim, Gabriela Figueiredo e João Bonelli registraram a canção dividida por Ney Matogrosso com Pedro Luís e a Parede.
Por meio da tela dividida em alguns momentos em poucos fragmentos e em outros em dezenas, os diretores mostram a mesa de som, os músicos tocando seus respectivos instrumentos (como a baqueta na mão do baterista e os dedos do violonista dedilhando o instrumento), Vanessa da Mata diante do microfone com um fone de ouvido na cabeça, e o corredor por onde chegará Ben Harper. As imagens mais interessantes são as que apresentam detalhes geralmente desprezados, caso da cantora brincando com os músicos, dançando e depois descansando numa cadeira.
Nesse clipe os contrastes de fotografia também são muito bem explorados. Enquanto Vanessa da Mata exibe um vestido vermelho num estúdio bem iluminado, Ben Harper surge primeiro cantando num ambiente bem escuro e depois, usando um boné azul, em outro diante de uma árvore num dia bem ensolarado.
O principal objetivo de clipes como Boa Sorte Good Luck parece ser o mais simples registro do encontro musical entre dois artistas importantes, no caso Vanessa da Mata e Ben Harper. Funciona quase como um “making of”, com os bastidores no estúdio, os ensaios que antecederam as gravações e o clima que as cercaram. Para isso, são precisos cuidados bem específicos com a fotografia, a iluminação e com uma direção que busque mostrar as cenas sempre por ângulos diferentes e inesperados a fim de não cansar o espectador com algo que ele já deve ter visto tantas vezes nas mais diferentes circunstâncias.
Há também a nítida intenção de valorizar os versos da canção e sua interpretação. No caso, a bonita adaptação de Vanessa da Mata para a letra original de Ben Harper: “É só isso / Não tem mais jeito / Acabou, boa sorte / Não tenho o que dizer / São só palavras / E o que eu sinto / Não mudará / Tudo o que quer me dar / É demais / É pesado / Não há paz / Tudo o que quer de mim / Irreais / Expectativas / Desleais”.
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Guilherme Bryan
em 03.12.2008. Comente!
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"ME LOVE"
O ROMANCE FRAGMENTADO DE SEAN KINGSTON
Aproveitando a vinda do rapper norte-americano Sean Kingston, de 18 anos, ao Brasil, comentamos aqui um de seus clipes mais badalados, Me Love, dirigido por Justin Francis/The Saline Project. Não há exatamente nenhuma novidade, muito pelo contrário, o que se vê a manjada técnica de fragmentação da tela. Porém, para os menos exigentes, com certeza, trata-se de um clipe atraente e bem gostoso de ser assistido.
No mundo atual marcado pela tecnologia e pelos registros efêmeros de imagens, o diretor Justin Francis brinca com as fotos digitais tiradas com o celular. Logo a primeira imagem é a do telefone de Sean Kingston com sua foto. Ele está na porta de um bar e observa a aproximação de três garotas que aparecem na tela fragmentada na vertical e usam o mesmo figurino – casaco verde e blusa listrada em vermelho e branco. Ao longo do clipe, aumentará o número de garotas. Todas contracenarão com o rapper, que passeará com elas pelas ruas, as levará para tomar sorvete e paquerar diante de uma fonte, em cenas típicas do início de um forte romance.
Intercalando as imagens com as garotas, Sean Kingston aparecerá com sua banda tocando num bar lotado. Aos poucos, porém, o espectador descobrirá que o tal público é formado pelas meninas com a mesma roupa. No final, elas desaparecerão do local aos poucos e o rapper terminará tocando com a platéia completamente vazia.
Outra seqüência do clipe, que, apesar de ser vista aos montes por aí, faz todo sentido neste caso é a da câmera passeando pelas garotas diante de uma rua ensolarada com casas tão coloridas que mais parecem maquetes. As meninas olham direto para o espectador, acenam, fazem caras e bocas, e mandam beijinhos.
Essas imagens combinam com perfeição com uma letra que indica o rompimento de um grande amor, com a garota indo embora. “Agora estou sentado numa cadeira sem ninguém aqui e estou me sentindo completamente sozinho / Pensando em mim como uma desgraça porque meu amor se foi / Eu estou sentindo falta dela e eu sei que ela está sentindo a minha / Faz dois anos e na metade de julho três” (“Now I’m sittin’ in a chair with no one here / And I’m feelin’ all alone / Thinking to myself like / Damn, why my baby up and gone / It’s like I’m missin’ her and I know she’s missin’ me / It’s been two years and a half in july will make it three”).
"Me Love", portanto, não é um grande clipe, mas cumpre com perfeição seu objetivo que parece ser atrair o jovem espectador com imagens de belas garotas, uma historinha de fácil e rápida compreensão, e cenas do rapper cantando com sua banda. No final, fica-se com a sensação de ter visto algo bastante divertido e nem um pouco cansativo.
* O norte-americano Justin Francis é o diretor de "Unbreakable", da Alicia Keys; "Somewhere Only We Know", do Keane; "Don’t Lie", do Black Eyed Peas; "Hate It Or Love It" (50 Cent feat. The Game) e "Like Toy Soldiers" (Eminem), entre outros.Promoção Me Leva TVZ - Quer ir ao show do Sean Kingston e entrar no camarim? Mande o seu TVZé!
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SORRY (BLAME IT ON ME)
AS VÁRIAS HISTÓRIAS DE AKON
A canção Sorry ("Blame It One Me"), do cantor de R&B e hip-hop Akon, é extremamente visual e narra várias histórias simultâneas, o que facilitou bastante o trabalho do diretor Chris Robinson. Afinal, bastava aproveitar as situações descritas na introdução da letra da música para obter um clipe, no mínimo, interessante. Porém, ele foi além e obteve um vídeo que, em meio a obviedades, atrai por seus efeitos de áudio e imagem.
A primeira imagem do clipe é a de uma garota sentada de roupão numa escada com o telefone na mão. Sua situação é descrita apenas na terceira estrofe da introdução da canção: (“Querido, sou eu. É aniversário do bebê. Estou com saudades. Queremos que você volte para casa. / Me ligue de volta. Amo você. Tchau”).
O telefone toca e um DJ, enquanto trabalha, vê a imagem de sua namorada na tela do seu celular. A história é descrita na primeira estrofe: (“Por que ainda está em casa... / Venha até a boate. Está uma loucura!). Surge a garota, que experimenta um vestido azul na frente do espelho.
A terceira história é a da mãe, que aparece lendo e sofrendo com uma carta escrita por seu filho, que a fala no vídeo e faz parte da canção: “Mãe. Agradeço por estar lhe escrevendo esta carta. Tenho muito tempo para pensar aqui. Parecemos animais enjaulados”.
Vários trechos de programas de notícias da televisão e palavras que piscam rapidamente na tela, anunciando que Akon é acusado de executar uma garota de 14 anos. É quando começa a letra da canção de fato com Akon em frente a um muro cinza, onde abrem cinco “janelas” com as imagens dos personagens do videoclipe.
Enquanto imagens “saem” do muro para dar continuidade a cada uma das narrativas paralelas, Akon canta: “As life goes on, I’m starting to learn more and more about responsability / And I realize that everything I do is affecting the people around me. / So I want to take this time out to apologize for things that I’ve done, / Things that haven’t occurred yet, / And things that they don’t want to take responsability for” (“Como a vida passa, estou aprendendo mais sobre responsabilidade. / E eu me dei conta de que tudo o que faço está afetando as pessoas à minha volta. / Então, quero aproveitar este tempo livre, / Para me desculpar pelas coisas que fiz / Pelas coisas que ainda não aconteceram / E pelas coisas que eles não querem assumir”).
A garota da primeira história aparece brigando com seu companheiro na frente do filho, enquanto ele pega suas malas e vai embora. Ele bem telefona no dia do aniversário do menino, mas bem no momento em que cantam “parabéns” e ninguém escuta. O garoto olha desolado pela janela.
A segunda história é a que tem o desfecho mais feliz. A garota arruma uma sacola com roupas e sai de casa usando o vestido azul, enquanto seus pais vêem televisão. No final, ela aparece toda feliz dançando entre outros jovens na festa animada pelo seu namorado DJ.
O final mais trágico está reservado para o episódio em que a mãe lê a carta de seu filho. O rapaz e sua gangue tenta roubar um carro, mas ele é capturado pela polícia. Já dentro da viatura, ele vê sua mãe do lado de fora desesperada.
Em meio às histórias, Akon canta diante do muro e aparece olhando pela janela de um apartamento até ser levado por uma garota para dar uma entrevista coletiva, onde a luz dos flashes “estouram” na sua face. Vale destacar aqui a excelente edição de áudio, que insere ruídos extremamente importantes para tornar cada um dos episódios ainda mais dramáticos. No final do clipe, ele deixa a sala de entrevista e há um corte para sua imagem diante do muro cinza para o qual se vira e caminha em direção às janelas.
Não estamos diante de algo inovador, muito pelo contrário, há várias imagens-padrão vistas praticamente o tempo todo na televisão. Mesmo assim, em “Sorry (Blame It On Me)”, o diretor Chris Robinson demonstra como é possível se valer positivamente de uma letra bastante descritiva e, ao acrescentar imagens aos versos, obter algo ainda mais criativo.
* Chris Robinson é conhecido por dirigir videoclipes principalmente de artistas de hip hop norte-americano como Snoop Dogg (Beautiful), Nas (I Can), Jay Z e Beyoncé (’03 Bonnie & Clyde) e Alicia Keys (A Women’s Worth e You Don’t Know My Name), entre outros.
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Guilherme Bryan
em 02.12.2008. Comente!
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ATÉ QUANDO?
GABRIEL O PENSADOR PASSIVO E CONTESTADOR
O videoclipe Até Quando?, dirigido por Oscar Rodrigues Alves e Nando Cohen para o Gabriel O Pensador em 2001, além de ter revelado um grande montador para o audiovisual brasileiro – Daniel Rezende (depois indicado ao Oscar pela montagem de Cidade de Deus) – pode ser considerado uma das produções nacionais mais criativas e originais do gênero.
Gabriel O Pensador aparece com o cabelo solto, camiseta e calça cinza, estirado numa poltrona também cinza num fundo vazio da mesma cor. Enquanto ele fecha os olhos, numa atitude de total desânimo, sua imagem se multiplica e aparece uma réplica do cantor também sentada, mas de camiseta regata preta, que começa a cantar, gesticular e fazer sinais de acordo com os versos da letra da canção. Trata-se, na verdade, de dois personagens – o primeiro pacífico e submisso, e o segundo contestador – que interagem o tempo inteiro entre si e com desenhos que são inseridos ao longo de todo o videoclipe.
Diante da tonalidade cinza dominante no videoclipe, a animação traz cores vivas para a tela, como amarelo, azul, vermelho e cor-de-rosa, e desenhos de traços fortes e agressivos, que surgem principalmente na cabeça e em torno do Gabriel O Pensador contestador. Esse é o caso de uma cabeça amarela que explode com um tiro de revólver, totalmente condizente com os versos: “A polícia só existe pra manter você na lei / Lei do silêncio, lei do mais fraco: / Ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco”.
Algumas animações também ocupam a imagem do Gabriel O Pensador submisso. Primeiro com o desenho de uma roupa amarela presa que envolve e prende o corpo do personagem com cadeado e lhe fornece braços cruzados. Depois, quando ele se encolhe todo na poltrona e surge o desenho do corpo e das patas de uma águia que o ataca. No final, o corpo desse personagem também se torna o desenho de um esqueleto.
Há nesse videoclipe uma total interação com a letra da canção. A começar pelos sinais realizados pelo Gabriel O Pensador contestador, que, aos poucos, começa a incomodar o personagem submisso, o qual se mexerá na poltrona e chegará quase a esboçar algum tipo de reação que nunca se concretiza. Depois as ilustrações também fornecem novos significados aos versos da canção, cujo refrão é uma nítida demonstração da força criativa e da preocupação social de seu autor: “Até quando você vai levando porrada, porrada? / Até quando você vai ficar sem fazer nada? / Até quando você vai levando porrada, porrada? / Até quando vai ser saco de pancada?”.
É interessante observar outro aspecto enriquecedor de Até Quando? Trata-se de uma cuidadosa edição de som, que insere alguns ruídos na canção, principalmente com o aparecimento das animações na tela e nos momentos em que a tela pisca, e também de um processo de gravação acelerada da canção que, quando colocada na rotação correta, torna os gestos do Gabriel O Pensador ainda mais rápidos, fortes e agressivos. Para verificar isso, basta prestar atenção no trecho “Acordo, não tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar / O cara me pede diploma, não tenho diploma, não pude estudar / E querem que eu seja educado, que eu ande arrumado, que eu saiba falar / Aqulo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá”.
Até Quando? pode ser considerado um videoclipe simples, uma vez que não há as constantes mudanças de cenários e figurinos, e nem uma montagem frenética e excitante com centenas de cortes que estamos acostumados a ver em outros videoclipes. Está justamente aí sua riqueza: praticamente num único plano-seqüência, ele apresenta um inovador e rico trabalho de pós-produção que o torna um dos videoclipes mais inovadores e criativos da história desse gênero audiovisual no Brasil.
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Guilherme Bryan
em 01.04.2008. Comente!
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GWEN STEFANI EM DOIS MOMENTOS –
NOW THAT YOU GOT IT E EARLY WINTER
Atendendo aos pedidos, comentamos aqui dois dos mais recentes videoclipes da cantora Gwen Stefani – "Now That You Got It" e "Early Winter". Vistos em seqüência, esses dois clipes demonstram a preocupação da artista em apresentar trabalhos em que há uma permanente mudança de figurinos e cenários, e a presença constante de cores vivas e fortes.
Now That You Got It começa com uma voz off apresentando o clipe e com a imagem de um helicóptero se aproximando de uma ilha, onde está escrito o nome da cantora e, um pouco depois, o título da canção e a citação a participação do cantor Damian “Jr. Gong” Marley. Com relação aos figurinos, Gwen Stefani aparece de top branco, chapéu verde e bermuda listrada na primeira seqüência e depois com muitas outras combinações, mudando inclusive a maneira de exibir seu cabelo loiro. Para citar apenas alguns figurinos, ela surge vestida com shorts colorido e uma camiseta com as cores da bandeira da Jamaica, quando pilota uma moto; de vestido florido, quando está sentada a mesa de um restaurante; de vestido e casaco bege com bustiê branco ao lado de um coqueiro diante do mar; de calça jeans, camiseta branca e chapéu preto; e de bermuda verde, camiseta regata listrada vermelha e branca, e laço branco na cabeça.
O que mais chama a atenção nesse videoclipe é a maneira como são apresentados os cenários. Na maioria das vezes, eles parecem algo “fake”, como maquetes ou chroma-keys, o que provoca a sensação de que a artista está passeando por um “universo de fantasia ou de desenho animado”. Esse é o caso, por exemplo, da mata e das casas por onde Gwen Stefani passa pilotando uma motocicleta; e do ambiente litorâneo com coqueiros. Nesta seqüência, repare também na tonalidade azul, rosa e alaranjada do céu. Esse forte efeito cromático se repete com a mesma força quando vários dançarinos aparecem embaixo de um céu bem avermelhado.
Nesse ambiente extremamente colorido e marcado pela mudança de cenários e figurinos, os movimentos de câmera são bastante atraentes. Numa das primeiras seqüências, por exemplo, uma garota em cima de uma moto aponta o dedo para o canto esquerdo da tela e, para representar a velocidade, aparece uma mancha que se transforma na imagem de Gwen Stefani e Damian “Jr. Gong” Marley cantando. Em outro momento, a tela realiza um movimento de 180 graus trocando a imagem da cantora sentada numa pedra diante de uma cachoeira com a dela junto com colega num restaurante litorâneo. Esse giro se repete quando ela canta ao lado de coqueiros. Outro movimento interessante é o que a câmera faz lentamente, num determinado momento, em torno do cantor.
A variação cromática da imagem possui o mesmo destaque em Early Winter, que começa com Gwen Stefani em preto e branco, e de vestido branco sentada no chão. O preto e branco, aos poucos, vai sendo intercalado com imagens coloridas da cantora se olhando no espelho. Em seguida, são mostrados takes escuros e marcados por um tom avermelhado. Há ainda toda uma seqüência da artista junto com um rapaz no corredor de um apartamento em que predomina fortemente a tonalidade amarela. Também é interessante quando a luz pisca com a cantora olhando para o espelho.
Com relação ao figurino, há poucas alterações nesse videoclipe, mas elas são de grande importância para sua compreensão. Na maior parte do clipe, a cantora usa uma roupa toda preta. Porém, nas seqüências do quarto ela utiliza um vestido branco e outro preto, verde claro, branco e rosa, ambos volumosos, conhecidos como balonê.
Movimentos criativos de câmera também estão presentes em Early Winter. A começar pela imagem deslumbrante de duplo movimento – da cantora caminhando em direção da câmera enquanto atrás dela passa um trem do metrô da esquerda para a direita. Como poderia se imaginar, o momento do refrão da canção é o que reúne o maior número de imagens interligadas unindo todas as seqüências – da artista solitária no quarto com flores vermelhas e brancas caindo, dela com o rapaz no mesmo quarto, na estação de metrô e diante do espelho. Outra seqüência bastante intensa e que mais devem atrair os espectadores é a que reúne ela se ajoelhando e deitando no chão com os diferentes figurinos.
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em 12.18.2007. Comente!
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DIARIAMENTE, DA MARISA MONTE
O ENCANTO DE TRAÇOS SIMPLES
Muitos antes de ser utilizada quase a exaustão em filmes publicitários exibidos na televisão, uma técnica aparentemente simples, mas bastante criativa e envolvente foi utilizada no videoclipe Diariamente, dirigido por Guilherme Ramalho para Marisa Monte em 1991. O que vale é a limpeza e riqueza de traços num fundo branco que parece pedir a participação do espectador para que complete a imagem. Claro que para isso a contribuição da letra da canção, escrita por Nando Reis, é fundamental. Eis, então, mais um casamento perfeito entre música e imagem.
A fim de que a identificação com o espectador seja rápida e lúdica, os traços dos desenhos lembram os das crianças. Uma prova são os bonequinhos feitos apenas com um círculo na cabeça e traços formando o corpo, as pernas e os braços. O verso “para embaixo da sombra: guarda-sol” é representado pelo tal boneco que caminha e deita numa areia imaginária, embaixo do sol, protegido pelo tal aparelho. As letras de mão são infantis e aparecem, primeiro, dispersas na tela para depois serem organizadas na pauta.
Há versos da canção que se tornam ainda mais ricos em função dos desenhos que os acompanham. Esse é o caso de “pra lavar a roupa: omo”. Apesar do declarado merchandising, aparece o desenho de uma caixa de papel que, ao lado de uma camiseta, explode formando milhares de bolhas que encobrem a roupa. A calculadora é ilustrada por uma raiz quadrada e um ábaco (instrumento muito utilizado pelos orientais para fazer contas). A referência às ruas paulistanas Pamplona e Assis é ilustrada pela imagem de um santo com vários passarinhos espalhados pelos braços. “Para Adidas o conga nacional” vem acompanhado de um garoto de tênis segurando uma bandeira do Brasil. Por sua vez, “para a luz lá na roça, 220 volts” é representado por uma casa, no início, escura com vários postes ao lado, que recebem fios, os quais iluminam o local. E um menino sentado diante de uma carteira com um lápis na mão fica com os olhos arregalados para representar a amnésia.
Alguns temas abstratos ou delicados são tratados de maneira extremamente doce. Por exemplo, a mulher que aborta e precisa de repouso é representada por um “xis” na barriga e o deitar numa cama. “Para saber a resposta, vide o verso” aparece acompanhado de uma folha com um ponto de interrogação que gira para mostrar um ponto de exclamação. E o verso “para a menina que engorda: hipofagin” é ilustrado por uma menina gordinha que se torna um esqueleto.
Outro aspecto deste videoclipe é que todas as imagens simbolizam movimento. A começar pelo primeiro desenho exibido – o símbolo de Ying Yang – que roda na tela e se transforma num homem fazendo careta para um remédio, enquanto Marisa Monte canta: “para calar a boca, rícino”. O mesmo acontece com o balde despejando água num homem deitado, que acorda assustado, com o cumprimento de duas mãos selando uma aposta e com a pipoca que estoura. E retorna no final quando há uma aproximação do mesmo símbolo do início, agora desenhado por um garoto.
Essas seqüências são ilustrativas também de outro aspecto importante do videoclipe: a ausência de edição sonora, o que faz com os desenhos e seus movimentos provoquem a sensação do barulho das imagens descritas na letra da canção e que possuem barulho. A parte instrumental da canção, em outro momento, provoca a sensação do movimento da gangorra onde brincam duas crianças. Outros exemplos similares são o movimento do apagador limpando a lousa, o beijo que um rapaz recebe da namorada, o telefone que toca, a gota de água caindo na poça e as notas musicais saindo de uma vitrola.
Diariamente retoma uma teoria defendida pelo pioneiro e um dos mais importantes pensadores do cinema: o russo Serguei Eisenstein. Para esse cineasta e teórico, duas imagens em contato uma com a outra provocam uma terceira imagem ou um novo significado. Justamente o que é tão bem demonstrado por Guilherme Ramalho nesse videoclipe singelo, de traços simples, mas capaz de provocar forte e eterno encantamento.
* Guilherme Ramalho é co-diretor, com Kátia Lund, de Bonde do Dom, da Marisa Monte, e diretor de Já Sei Namorar, dos Tribalistas, entre outros.
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em 12.12.2007. Comente!
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DON’T STAND SO CLOSE TO ME ’86
O CLIPE-SÍNTESE DO POLICE
Quando Sting, Stewart Copeland e Andy Summers pisarem no palco do estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, no sábado, 8 de dezembro, o público brasileiro estará matando uma saudade de mais de 25 anos de uma das mais importantes bandas do pop rock mundial. Para comemorar a vinda do Police ao Brasil, comentamos aqui aquele que pode ser considerado seu videoclipe-síntese, pois apresenta uma série de riquezas e experimentos gráficos e menciona vários videoclipes da banda que o antecederam. Trata-se de Don’t Stand So Close To Me ’86, dirigido pela dupla Godley & Creme.
Godley & Creme é conhecida como uma dupla que sempre se mostrou disposta nos videoclipes que dirigiram a realizar uma série de experimentos audiovisuais. Em Don’t Stand So Close To Me ’86 não foi diferente, com algumas experimentações extremamente bem-sucedidas e que fizeram escola, e outras, de certa forma, fracassadas, tanto que caíram em desuso.
Entre as experimentações gráficas ricas e bem-sucedidas, pode-se destacar uma imagem que se repete várias vezes no videoclipe: a da silhueta dos três músicos girando, se multiplicando, se sobrepondo e tremendo na tela, em alguns momentos na cor preta e em outros em azul, amarelo e vermelho. Outras que provocam efeitos muito atraentes são as que relacionam a imagem dos músicos na época em que o clipe foi realizado com a de produções antigas. Sting surge em determinado momento girando em cima de um cubo preto, enquanto no canto esquerdo da tela há um quadrado exibindo trechos do videoclipe Every Breath You Take. Em outro momento, a tela é ocupada por imagens de shows do Police, algumas delas retiradas do clipe Spirits In The Material World. Mais adiante, os três músicos aparecem girando em baixo de fotos e capas de discos da banda, as quais se sucedem em velocidade extremamente acelerada, simbolizando uma imensa síntese.
A constante mudança cromática também pode ser considerada uma experiência muito bem sucedida nesse videoclipe. São pouquíssimas as seqüências que permanecem inteiras com o mesmo tom cromático. Na maioria das vezes, o que se vê é o espectador sendo provocado e estimulado com imagens extremamente coloridas que, de repente, se tornam pretas e brancas, e vice-versa.
Passadas duas décadas da realização desse videoclipe, alguns testes de experimentações audiovisuais parecem ultrapassadas. É o que acontece com as figuras que surgem flutuando por entre os músicos, como guitarras e pedaços da bateria. O pior dessa seqüência é o surgimento da silhueta de um violoncelo flutuante e dentro dele a imagem de pessoas aplaudindo. Ao mesmo tempo, porém, quando passa no alto da tela um trecho do clipe Wraped Around Your Finger, com o Sting entre dezenas de velas acesas formando um caminho, o efeito é surpreendente ainda hoje.
Também não é nada original atualmente, mas certamente era em 1986, uma espécie de videogame apresentado por ruídos metálicos adicionados à canção e por três linhas pontilhadas horizontais em cima das quais surgem duas mulheres dançando, as silhuetas dos músicos, figuras geométricas coloridas (quadrado, círculo e triângulo) e até um cavalo. Essas linhas também são atravessadas, estranhamente, no sentido vertical por instrumentos musicais.
Com acertos e erros, o que importa aqui é que, se Don’t Stand So Close To Me ’86 soava na época de sua realização como algo bastante original e criativo, atraindo a atenção dos jovens telespectadores, hoje esse videoclipe dirigido pela dupla Godley & Creme é um excelente exemplar do que era moderno e inovador na segunda metade dos anos 80. Ou seja, ele poderá ser sempre visto como algo representativo do audiovisual realizado numa determinada época. Ele também é, ao mesmo tempo, singular e síntese da carreira do Police. Afinal, em meio a inovações, é interessante a presença constante de citações a outros videoclipes, álbuns e shows da banda. Por isso, nada melhor do que assisti-lo antes de ir ao show do Maracanã.
* Godley & Creme são os diretores de clipes de artistas como George Harrison (When we was fab), Peter Gabriel (Biko – version 2), Huey Lewis & The News (Hip to be square), Lou Reed (No money down), Eric Clapton (Forever Man), Sting (If you love somebody) e Duran Duran (A view to a kill), entre outros.
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Guilherme Bryan
em 12.03.2007. Comente!
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O SHOW VISUAL DE D.A.N.C.E., DO JUSTICE
Um dos melhores videoclipes que estrearam em 2007 é D.A.N.C.E., dirigido por Jonas & François para a dupla de música eletrônica francesa Justice, pelo fato de recuperar algumas experiências testadas com sucesso no videoclipe e, a partir do contato entre elas, realizar algo bastante original. Exibir, por exemplo, palavras da letra da canção na tela não é novidade. Muito menos desenhos que vão se transformando o tempo todo e algo que termina do modo inverso como começou. Porém, esses três procedimentos em conjunto, somados ao fato de praticamente toda a ação acontecer nas estampas das camisetas de dois rapazes, resulta num videoclipe que consegue em pouco mais de três minutos seduzir e prender a atenção do espectador.
O videoclipe começa com a imagem em preto e branco do corpo de um rapaz, sem cabeça, sentado num balcão arrumando a antena de um rádio, do qual se escuta o seu ruído característico de procura de sintonia. Quando alguns raios saem do aparelho, a música começa. Há então um close no dial, onde um botão verde procura uma estação. Nesse instante, a canção, que havia se misturado com o ruído, recomeça com a tela ocupada por uma espécie de logotipo colorido com palavras, desenhos e números. Após atravessar o círculo deste, a câmera passa rapidamente por vários desenhos de pernas femininas e detalhes de suas roupas, e pelas mãos erguidas de uma multidão de pessoas que parecem querer pegar os números e letras que surgem no alto.
Após a aparição de uma tela com fundo branco e várias bolinhas pretas, e, no centro, um quadrado vermelho escrito “As see in TV” (“como se vê na TV”), surge o título da canção, DANCE, na camiseta regata de um rapaz que se levanta, caminha, tira sua jaqueta e convida outro para caminhar com ele numa espécie de desfile de moda. Essa sensação de estarem os dois num desfile, no entanto, é quebrada em dois momentos: quando um deles bebe alguma coisa e abandona o copo numa banqueta e no instante em que uma garota os cumprimenta e atravessa a tela.
A maior parte da ação transcorre na modificação constante e frenética de desenhos, palavras, números e trechos da canção extremamente coloridos na estampa das camisetas dos rapazes, sempre em preto e branco. Algumas destas cenas são bastante interessantes. A primeira delas é quando um dos garotos puxa a camiseta branca do outro e palavras parecem escorrer da estampa. Outra é quando uma bola rosa e amarela pula para uma das camisetas. Há ainda um batom que é passado na boca do desenho de um rosto feminino e a cabeça que explode da imagem de um garoto tocando violino. E o instante em que o teclado desenhado na camiseta de uma terceira pessoa cai da camiseta e se torna em algo real.
O restante da ação transcorre na aparição de palavras e números coloridos no centro da tela escura. É importante notar a maneira inteligente com que os diretores trabalham os momentos em que as imagens abandonam as camisetas. Numa delas as imagens continuam na camiseta, só que a tela escurece completamente. Em outra mudança as palavras parecem ocupar a tela de um computador. Já em outro elas seguem o padrão das estampas e a letra da canção, mas parecem soltas no centro da tela.
Para encerrar o vídeo, as seqüências iniciais são exibidas ao contrário. Ou seja, primeiro as mãos erguidas das pessoas, em seguida as pernas dos corpos femininos, a espécie de logotipo e o botão verde se movimentando no dial do rádio. Esse recurso, tão batido, se torna aqui uma solução bastante atraente para o clipe.
D.A.N.C.E. demonstra como o videoclipe e a possibilidade de experimentações que oferece para jovens realizadores está bastante distante de terminar. A dupla Jonas & François, que já dirigiu videoclipes para artistas como 50 Cent e Kanye West, prova mais uma vez como idéias aparentemente simples podem ser extremamente ricas e atraentes para o espectador.
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Guilherme Bryan
em 11.26.2007. Comente!
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"MAMA SAID", DO METALLICA
NEM TUDO É O QUE PARECE SER
O trabalho do diretor holandês Anton Corbijn com a banda New Order e sua antecessora, Joy Division, é realmente o mais importante de sua carreira. Isso não impediu, no entanto, que ele realizasse trabalhos bastante criativos, inovadores e grande impacto para outros artistas. Esse é o caso, por exemplo, do videoclipe Mama Said, dirigido para o Metallica em 1996.
Anton Corbijn chama a atenção, primeiramente, por demonstrar como não há uma obrigatoriedade em, para se realizar um videoclipe interessante, associar imagens à letra da canção. Em Mama Said, não há um verso sequer que ganhe novos significados por meio do que é exibido na tela. Muito pelo contrário: o diretor holandês se vale da presença do líder do Metallica, James Hetfield, o tempo todo no clipe para possibilitar uma reflexão bastante interessante a respeito da ilusão de ótica provocada pelos audiovisuais e também da presença do tempo, provando que nem sempre tudo o que se vê corresponde exatamente à realidade.
Mama Said começa com a imagem de uma grande cidade com seus prédios e carros passando, e, no canto esquerdo, apenas uma beirada do chapéu de caubói utilizado por James Hetfield, que, como aparecerá em seguida, utiliza uma camisa de cetim roxa e calça jeans, além de correntes no pescoço e barba e bigode no rosto. O rapaz observa a paisagem ao seu redor, coça a barba, tira o chapéu e senta no banco de trás de um automóvel, que aparece em movimento, exibindo na janela traseira e também nas laterais imagens das ruas da cidade e, depois, de uma estrada deserta. Enquanto isso o músico tira o cochilo, canta e toca violão, até descer num deserto posto de gasolina. É quando os outros integrantes do Metallica atravessam a estrada e olham para dentro do automóvel.
O carro segue viagem até retornar, durante a noite, para a cidade, que exibe seus vários luminosos, chafarizes e túneis iluminados. Cansado, James Hatfield deita no banco e dorme. Quando acorda, a canção está quase terminando e ele se encontra num estúdio de gravação, onde há apenas a parte traseira de um automóvel devidamente aberta para ser filmada e nas laterais e no fundo telões que reproduzem a paisagem da cidade e da estrada. O músico, então, levanta-se, pega seu cavalo e sai da tela.
Esse videoclipe desfaz, então, as possíveis expectativas do espectador com relação ao seu desfecho, enquanto expõe todas as ilusões que envolvem a produção e realização de um audiovisual. Ou seja, nem sempre o que está sendo exibido acontece de fato naquele minuto e que, como qualquer produção artística, o tempo interno de uma obra não corresponde necessariamente ao tempo real em que o espectador fica exposto às imagens.
* Anton Corbijn é diretor de videoclipes de artistas como Echo and The Bunnymen (The Game), Depeche Mode (Behind the Wheel, Walking in my Shoes, Barrel of a Gun, It’s No Good e Enjoy the Silence), U2 (One e Electrical Storm), Travis (Re-Offender), The Killers (All These Things That I’ve Donne) e Nirvana (Heart Shaped Box).
Postado por
Guilherme Bryan
em 11.05.2007. Comente!
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ATMOSPHERE, DO JOY DIVISION
HOMENAGEM A IAN CURTIS
Um dos melhores filmes exibidos durante a 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que termina neste dia 01 de novembro, é a biografia cinematográfica do líder do Joy Division, Ian Curtis, filmada por um dos melhores fotógrafos e diretores de videoclipes do mundo – o holandês da pequena cidade de Strijen, Anton Corbijn. Para quem ainda não teve a oportunidade de assistir Control, vai aqui uma palhinha do trabalho de Corbijn com uma canção do Joy Division, Atmosphere, realizado em 1988. Ou seja, oito anos após a morte de Ian Curtis.
O videoclipe começa com o nome Joy Division escrito em branco na tela escura tendo acima o sinal de + e abaixo o de -, o que se tornou uma espécie de logotipo da banda. Após esse logo ser substituído por uma faixa branca no centro da tela, a câmera passeia por uma espécie de cone imenso de madeira com a ponta branca e o resto todo preto. Essa imagem irá, de certa maneira, interagir com o aparecimento de dois rapazes de costas – um todo de preto com o gorro em formato de cone e, nas costas, o sinal de – e o outro todo de branco com o gorro no mesmo formato e, nas costas, o sinal de +. Este segundo, claro, é uma direta referência aos integrantes da Ku Klux Klan, organização racista dos Estados Unidos.
Com todas as imagens em preto e branco, numa nítida relação com os uniformes, que aparecerão utilizados por vários outros homens, a câmera em alguns momentos se atém a exibir paisagens inóspitas e vazias. Porém, o clipe será dominado pelos movimentos destes homens e pela aparição de várias fotos do Joy Division e, principalmente, de seu líder, Ian Curtis. Aliás, são estas imagens que proporcionarão as cenas mais bonitas. Por exemplo, em determinado momento as fotos do vocalista fumando exibidas em seqüência parecem lhe fornecer movimentos. O mesmo acontece depois com imagens que registram sua dança típica no palco são posicionadas da esquerda para a direita, passando ao espectador a ilusão de que ele está de fato dançando.
Os homens encapuzados carregarão pelo mato e à beira do mar, primeiro imensos cones e, logo em seguida, pôsteres gigantes de Ian Curtis. Outra cena plasticamente impecável é a de um rapaz de preto se desequilibrando com o cone e caindo em câmera lenta na areia da praia. No final, eles carregarão um dos pôsteres da direita para a esquerda até desaparecerem da tela, que voltará a ser ocupada pela faixa central branca do início e pelos sinais de + e -, encerrando o videoclipe.
Atmosphere, portanto, como sugere o título da canção, é um videoclipe em que as imagens são mais sugestivas e carregadas de beleza plástica do que exibem um significado imediato. Ou seja, associadas umas com as outras, elas não resultam necessariamente numa narrativa rapidamente perceptível com começo, meio e fim. Mas dão sentido quando associadas às batidas da música e a versos como “Walk in silence, / Don’t turn away, in silence / Your confusion, / My ilusion, / Worn like a mask of self-hate / Contronts and then dies. / Don’t walk away (Caminhe, em silêncio / Não se vire, em silêncio, / Sua confusão, / Minha ilusão, / Destruindo-se em uma máscara de ódio-próprio / Confrontando-se e morrendo / Não se vá)”. É possível encontrar, então, no videoclipe muito mais do que uma simples homenagem a Ian Curtis.
* Anton Corbijn é diretor de videoclipes de artistas como Echo and The Bunnymen (The Game), Depeche Mode (Behind the Wheel, Walking in my Shoes, Barrel of a Gun, It’s No Good e Enjoy the Silence), U2 (One e Electrical Storm), Travis (Re-Offender), The Killers (All These Things That I’ve Donne) e Nirvana (Heart Shaped Box).
Postado por
Guilherme Bryan
em 10.31.2007. Comente!
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